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SAÚDE BUCAL

Cigarros: a saúde e a doença periodontal


Professor Titular em Periodontia da FOP/Unicamp

Professor dos Cursos de Especialização/Mestrado e Doutorado da FOP/Unicamp

Membro da Academia de Ciência e Tecnologia de Valência (Espanha)

Membro da Academia Militar de Odontologia (Abomi)

Curso na Universidade de Illinois - Chicago (USA)

A revista The Economist comenta: "Os cigarros estão entre os produtos de consumo mais lucrativos do mundo. São também os únicos produtos (legais) que, usados como manda o figurino, viciam a maioria dos consumidores e muitas vezes os matam." Isso dá grandes lucros para a indústria do tabaco, mas enormes prejuízos para os clientes.

Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, dos Estados Unidos, a vida dos fumantes americanos é reduzida, coletivamente, todo ano, em uns cinco milhões de anos, cerca de um minuto de vida a menos para cada minuto gasto fumando. "O fumo mata 420.000 americanos por ano", diz a revista Newsweek. "Isso equivale a 50 vezes mais mortes do que as causadas pelas drogas ilegais."

O que vai no cigarro

Até 700 aditivos químicos talvez entrem nos ingredientes utilizados na fabricação de cigarros, mas a lei permite que os fabricantes guardem a lista em segredo. No entanto, constam entre os ingredientes metais pesados, pesticidas e inseticidas. Alguns são tão tóxicos que é ilegal despejá-los em aterros. Aquela atraente espiral de fumaça está repleta de umas 4.000 substâncias, entre as quais acetona, arsênico, butano, monóxido de carbono e cianido. Os pulmões dos fumantes e de quem está perto ficam expostos a pelo menos 43 substâncias comprovadamente cancerígenas

No mundo todo, três milhões de pessoas por ano -seis por minuto- morrem por causa do fumo, segundo o livro Mortality From Smoking in Developed Countries 1950-2000, publicado em conjunto pelo Fundo Imperial de Pesquisas do Câncer, da Grã-Bretanha, pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Sociedade Americana do Câncer. Esta análise das tendências mundiais com relação ao fumo, a mais abrangente até a presente data, engloba 45 países. "Na maioria dos países - adverte Richard Peto, do Fundo Imperial de Pesquisas do Câncer -, o pior ainda está por vir." Se persistirem os atuais padrões de tabagismo, quando os jovens fumantes de hoje chegarem à meia-idade ou à velhice, haverá cerca de 10 milhões de mortes por ano causadas pelo fumo - uma morte a cada três segundos.

 "O fumo é diferente de outros perigos", diz o dr. Alan Lopez, da OMS. "Termina matando um em cada dois fumantes". Martin Vessey, do Departamento de Saúde Pública da Universidade de Oxford, diz algo parecido: "Essas constatações no período de 40 anos levam à terrível conclusão de que metade de todos os fumantes terminará morrendo por causa desse hábito - uma idéia muito aterradora". Desde a década de 50, 60 milhões de pessoas morreram por causa do fumo. Essa idéia é muito aterradora também para a indústria do tabaco. Se todo ano, no mundo

todo, três milhões de pessoas morrem por motivos ligados ao fumo, e muitas outras param de fumar, então todo ano é preciso encontrar três milhões de novos fumantes.

Você mora, trabalha ou viaja com fumantes inveterados? Então talvez corra o risco ainda maior de contrair câncer de pulmão ou doenças cardíacas. Um estudo realizado em 1993 pela Agência para Proteção do Meio ambiente (EPA, em inglês) concluiu que a fumaça de cigarro no ambiente é um carcinógeno do Grupo A, o mais perigoso. O relatório analisou exaustivamente os resultados de 30 estudos da fumaça produzida pelo cigarro em repouso e da fumaça expelida depois de tragada.

A EPA diz que a inalação passiva da fumaça de cigarro é responsável pelo câncer de pulmão que mata 3.000 pessoas todo o ano nos Estados Unidos. A Associação Médica Americana confirmou estas conclusões, em junho de 1994, com a publicação de um estudo que revela que as mulheres que nunca fumaram, mas que inalam fumaça de cigarro no ambiente, correm um risco 30% maior de contrair câncer de pulmão do que outras pessoas que também nunca fumaram.

No caso das crianças pequenas, a fumaça de cigarro resulta em 150.000 a 300.000 casos anuais de bronquite e pneumonia. A fumaça agrava os sintomas de asma em 200.000 a 1.000.000 de crianças todo o ano nos Estados Unidos. A Associação Cardíaca Americana calcula que ocorra, todo o ano, 40.000 mortes por doenças cardiovasculares causadas pela fumaça de cigarro no ambiente. Um levantamento feito pela equipe de José Rosember, pneumo­logista brasileiro, avaliou os efeitos do tabagismo na saúde de 15 mil crianças entre zero e um ano. Nas famílias em que o pai fuma, cerca de 25% das crianças apresentou problemas respiratórios. Quando a mãe é fumante o número passa para 49%, pois ela tem mais contato com a criança.

Constatações de 50.000 estudos

A seguir temos uma pequena amostra do que preocupa os pesquisadores com relação ao fumo e à saúde:

  • Câncer de Pulmão: 87% das mortes por câncer de pulmão ocorrem entre os fumantes.
  • Doenças Cardíacas: os fumantes correm um risco 70% maior de apresentar doenças cardíacas
  • Câncer de Mama: as mulheres que fumam 40 ou mais cigarros por dia têm uma probabilidade 74% maior de morrer de câncer de mama.
  • Deficiências Auditivas: os bebês de mulheres fumantes têm maiores dificuldades em processar sons.
  • Complicações da Diabetes: os diabéticos que fumam ou que mascam tabaco correm maior risco de ter graves complicações renais e apresentam retinopatia (distúrbios da retina) de evoluções mais rápidas.
  • Câncer de Cólon: dois estudos com mais de 150.000 pessoas mostram uma relação clara entre o fumo e o câncer de cólon.
  • Asma: a fumaça pode piorar a asma em crianças
  • Predisposição ao Fumo: as filhas de mulheres que fumavam durante a gravidez têm quatro vezes mais probabilidade de fumar também.
  • Leucemia: suspeita-se que o fumo cause leucemia mielóide.
  • Contusões em Atividades Físicas: segundo um estudo do Exército dos Estados Unidos, os fumantes têm mais probabilidades de sofrer contusões em atividades físicas.
  • Memória: doses altas de nicotina podem reduzir a destreza mental em tarefas complexas.
  • Depressão: psiquiatras estão investigando evidências de que há uma relação entre o fumo e a depressão profunda, além da esquizofrenia.
  • Suicídio: um estudo feito entre enfermeiras mostrou que a probabilidade de cometer suicídio era duas vezes maior entre as enfermeiras que fumavam.
  • Outros perigos a acrescentar à lista: câncer da boca, laringe, gargantas, esôfago, pâncreas, estômago, intestino delgado, bexiga, rins e colo do útero; derrame cerebral, ataque cardíaco, doenças pulmonares crônicas, distúrbios circulares, úlceras pépticas, diabetes, infertilidade, bebês abaixo do peso, osteoporose e infecções dos ouvidos. Pode-se acrescentar ainda o perigo de incêndios, já que o fumo é a principal causa de incêndios em residências, hotéis e hospitais.

Fumo e a saúde periodontal

Embora exista um número expressivo de trabalhos comprovando uma maior severidade de doença periodontal em fumantes, o consumo de cigarros parece ter um efeito mascarador sobre os sinais clínicos da inflamação periodontal. Avaliando a ocorrência de sítios com sangramento gengival após a sondagem com pressão controlada (60g), observou-se que os fumantes tiveram menor porcentagem de sítios com sangramento em comparação aos não-fumantes (27% vs 40%), respectivamente. Por outro lado, poucos estudos fornecem dados sobre a influência do consumo de cigarros sobre o acúmulo de cálculo dental.

O efeito negativo do consumo de cigarros sobre o processo de reparo tecidual tem sido relatado em diversas áreas da saúde. Embora possamos considerar que, de maneira geral, a terapia periodontal mecânica pode ser utilizada com resultados satisfatórios tanto em fumantes quanto não-fumantes, estudos têm demonstrado que os níveis de melhora após tratamento em alguns parâmetros clínicos são menores nos fumantes. Em um estudo de cinco anos de acompanhamento sobre o tratamento não- cirúrgico de 90 pacientes, os fumantes apresentaram maior necessidade de nova intervenção cirúrgica em comparação aos não-fumantes. Em geral, as pesquisas mostram que a redução de profundidade de sondagem e o ganho clínico de inserção, nos fumantes, são cerca de 50% menor do que os obtidos em pacientes não-fumantes, após a terapia periodontal cirúrgica e não-cirúrgica.

Miller, avaliando fatores relacionados com a interferência no recobrimento radicular, constatou que o consumo de cigarros ocupa uma posição de destaque. Assim como Martins, avaliando enxerto subepitelial de tecido conjuntivo associado a retalho posicionado coronariamente em recessões classe I de Miller, encontrou menor taxa de recobrimento nos fumantes: 58,84% vs 74,73% nos não-fumantes. Um outro trabalho usando a mesma metodologia encontrou também diferença significante entre fumante e não-fumantes (69,8% vs 90,5 %).

Considerações finais

Há imensos motivos para deixar de fumar:

Proporciona uma boca mais saudável, compromete menos a evolução das doenças e as necessidades de tratamento periodontal, assim como a estética. Nas atividades clínicas diárias todos os nossos trabalhos odontológicos ficam comprometidos pelo hábito de fumar.

Aumenta a esperança de vida. A pele recupera a saúde original, ou seja, envelhecemos mais devagar. E, lógico, sem citar novamente toda a lista de comprometimento da saúde geral.


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