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BRASIL

Criadas primeiras células-tronco embrionárias brasileiras


Pesquisadora Lygia Veiga Pereira, da USP

Um grupo de pesquisadores brasileiros anunciou à comunidade científica, no último dia 2 de outubro, durante o III Simpósio Internacional de Terapia Celular, em Curitiba (PR), o estabelecimento da primeira linhagem de células-tronco embrionárias no Brasil.

A pesquisa, coordenada pela geneticista Lygia Veiga Pereira, da Universidade de São Paulo (USP), foi iniciada em 2006, após ser selecionada por edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e descongelou cerca de 250 embriões para chegar ao resultado. Há pouco menos de quatro meses, após 35 tentativas, os cientistas conseguiram extrair a primeira linhagem estável de células-tronco a partir de um embrião. Desde então, os pesquisadores passaram a multiplicar essas células, até que conseguiram determinar que as células obtidas eram pluripotentes - podem se transformar em qualquer tipo de tecido. Quando implantadas, as células possuem capacidade de retomar o desenvolvimento normal e colonizar diferentes tecidos derivados dos três folhetos embrionários existentes, e sua diferenciação pode ser induzida para tipos celulares específicos, como células precursoras hemato­poié­ticas, neuronais, endo­teliais, cardíacas e musculares. Se­gundo Lygia, as células utilizadas já se transformaram em neurônio e músculo. Agora, serão feitos testes em animais para confirmar a pluripo­tência.


Após ser estabelecida esta primeira linhagem, os pesquisadores poderão multiplicá-la indefinidamente para suprir a necessidade de pesquisa em vários grupos brasileiros. "Poderemos fazer a transferência da tecnologia para fomentar a área de pesquisa com células-tronco embrionárias humanas no Brasil e termos autonomia nesta área", comemora Lygia.

O projeto reuniu pesquisadores do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da USP e do Laboratório de Neurobiologia Celular do Departamento de Anatomia da Uni­versidade Federal do Rio de Ja­neiro (UFRJ). Também houve participação do Centro de Reprodução Humana Professor Franco Jr., de Ribeirão Preto (SP), do Centro de Fertilização Assistida (Fer­tility) e do Instituto Mara Ga­brilli, ambos de São Paulo (SP).

 

Reações diversas

Cientistas e pacientes que batalharam pela legalização das pesquisas com células-tronco embrionárias também comemoraram o feito na USP. "Valeu a pena brigar pela aprovação das pesquisas. Conseguir linhagens é o primeiro passo", disse ao jornal O Estado de S. Paulo a geneticista Mayana Zatz, diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, principal representante da comunidade científica na campanha pela Lei de Biossegurança.

Já o clérigo D. Antônio Augusto Dias Duarte, médico e membro da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, não vê motivos para comemorar. "Não se trata apenas de pesquisa, mas sim de seres humanos, que precisam ter seu direito à vida respeitado", disse. Críticos consideram que os embriões são equivalentes a pessoas, e por isso não poderiam ser destruídos para a obtenção das células.

Insegurança jurídica

A liberação definitiva para a produção de células-tronco embrionárias humanas só veio com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em maio de 2008, que julgou improcedente a Ação Direta de Inconsti­tucionalidade contra a Lei de Biossegurança, que havia si­do aprovada pelo Congresso em 2005. Se os pesquisadores coordenados por Lygia Veiga Pereira tivessem começado as pesquisas apenas após o julgamento no Supremo, não teria sido possível avançar tão depressa. "Na verdade, em 2005 as pesquisas haviam sido liberadas. A existência da ação de inconstitu­cionalidade não proibia. Essa foi a minha interpretação", explica Lygia.

A geneticista usa como argumento que seu projeto foi aprovado pelo Ministério da Saúde e pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e recebeu financiamento já em 2006. "Entendemos isso como um sinal para ir adiante."Mas nem tudo foram flores. Por conta da insegurança jurídica, cientistas tiveram bolsas de estudos negadas pela Fundação de Am­paro à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que temia proibições adiante. Mesmo assim, com o auxílio de verbas federais e de instituições privadas, o grupo prosseguiu.

 

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