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PROFISSÃO

Cresce o mercado de higiene bucal. Mais consumo, mais saúde?
Estudo do pesquisador em Saúde Pública Marco Antonio Manfredini analisa crescimento do mercado e relativiza seus efeitos na saúde bucal da população


CD Marco Antonio Manfredini

O brasileiro tem consumido mais produtos de higiene bucal? Segundo dados da indústria do setor, levantados por Marco Antonio Manfredini, pesquisador da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), sim. Mas em sua avaliação das informações, tal crescimento pode não estar sendo convertido à saúde bucal da população brasileira. O paradoxo é apresentado no trabalho Mercado de Produtos de Higiene Bucal no Brasil: Análise Crítica, de autoria de Manfredini, que traz um raio X do setor no Brasil nos últimos anos.

 

Para tanto, Manfredini avaliou as características mercadológicas da área, caracterizando-a, identificando suas tendências, analisando o comportamento das exportações e importações da indústria e analisando criticamente a organização do mercado no País. Segundo os dados apresentados, a indústria de cosméticos, perfumaria, higiene pessoal e limpeza responderia por cerca de 1/8 da produção da indústria química mundial. Neste cenário, de acordo com a empresa internacional de análise de mercado Euromonitor, o Brasil é o segundo mercado mundial em produtos de higiene bucal, desodorantes, perfumarias, produtos infantis, masculinos e para cabelos.

Pobre, mas limpinho – Em sua análise crítica, Manfredini destaca a higiene pessoal como característica cultural do brasileiro. “O encontro de 1500 (…) aproximou navegantes portugueses, que se lavavam de corpo inteiro, duas vezes ao ano, e índios, que se banhavam nos rios, cachoeiras e mares de dez a doze vezes ao dia. Os tupiniquins conservavam o seu hálito com hábitos de higiene pessoal como a ingestão e o gargarejo com suco de caju, e os tupis mantinham dentes fortes e alvos, limpando-os com pó de juá”, lembra o pesquisador.

Uma série de pesquisas descritas por Manfredini em seu trabalho confirma a relevância que o brasileiro dá à higiene, especialmente à bucal, mas aponta limitações. Entre adultos da Grande Porto Alegre (RS), um estudo identificou alta frequência de escovação, mas com significativa associação entre hábitos e condição socioeconômica. Outras dissonân­cias foram identificadas em estudo conduzido em Feira de Santana (BA) e Recife (PE). Na avaliação dos parâmetros clínicos de índice de acúmulo de placa, constatou-se que, apesar da frequência de escovação diária relatada ter sido boa, a qualidade da higiene bucal era ruim.

Para Manfredini, tais dissonân­cias são possíveis devido à avaliação precária ou inexistente “das justificativas para o aumento no consumo destes produtos, a desigualdade na sua distribuição pelas diferentes classes sociais e regiões brasileiras, a função do Estado no fornecimento gratuito e regulação destes produtos e o papel do mercado na indução desse consumo”. O pesquisador ressalta que, com a “pressão da indústria para o aumento do consumo”, é papel da sociedade e do Estado “debater a continuidade desta expansão, enfrentando o desafio de assegurar o acesso universal destes produtos a todos os brasileiros”.


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