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SAÚDE BUCAL
A dinâmica da luz
Teoria fotodinâmica usa uma combinação de feixe de luz e substância fotossensibilizante para destruir seletivamente um microorganismo ou tecido indesejado. Técnica é contra-indicada em pacientes alérgicos aos cromóforos


Aplicação cuidadosa do feixe
de luz: interação luz-fármaco

A terapia fotodinâmica (TFD) é um termo geral usado para designar tratamentos que usam luz para induzir reações bioquímicas em células, aliados ao uso de agentes fotossen­sibilizantes. A técnica ainda encontra-se em desenvolvimento, mas já é utilizada para destruir um tecido ou um microrganismo indesejado.

Primeiro uma droga fotossen­sibilizante é administrada no paciente pela via endovenosa, em caso de lesões tumorais e degeneração macular, ou de forma tópica, em áreas infectadas. A substância deve ser inofensiva e isenta de efeito adverso em tecido saudável ou normal.

Porém, quando uma luz - laser, monocromática, unidirecional e coerente - é aplicada sobre o tecido que recebeu a substância, a droga é ativada e o tecido ou o microrganismo sofre morte programada (apoptose) ou morre rapidamente.

"Com a aplicação cuidadosa do feixe de luz, inicia-se a interação luz-fármaco", sintetiza a odontopediatra, doutoranda em engenharia biomédica pela Universidade do Vale do Paraíba (Univap) e professora de Farmacologia e Odontopediatria da Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul), Giselle Rodrigues de Sant´Anna. Em 2000, ela fez um estudo pioneiro sobre aplicação da teoria fotodinâmica no tratamento de lesão de cárie de desenvolvimento agudo em crianças de 3 a 5 anos.

Giselle explica que algumas das drogas em desenvolvimento têm a propriedade de se concentrar em tumores, outros tipos de tecidos em proliferação e bactérias específicas, deixando de lado o tecido saudável cir­cunvizinho. Como nem tudo é perfeito, há um efeito potencialmente adverso na técnica. "Algumas drogas podem resultar em fotossensibilidade de pele em caso de uso sistêmico, o que significa que os pacientes têm que ficar fora de fonte de luz durante algum tempo após a administração da droga", alerta a docente.

Na terapia fotodinâmica, o fotossensibilizante não reage diretamente com células, microrganismos e tecidos. Em vez disso, explica Giselle, após ativação por luz, a substância transfere a energia da mesma para o oxigênio molecular, formando uma espécie particularmente reativa, chamada de "oxigênio singleto". Após passar sua energia, o fotossensibilizante volta a seu ponto de partida e aguarda uma nova carga de luz para repetir o processo inteiro novamente. Segundo a odontopediatra, a substância age efetivamente como um tipo de catalisador para reações de óxido-redução e de formação de radicais livres, o que torna o processo inteiro muito eficiente.

Biofilme

Os cientistas da Odontologia acompanham com interesse a evolução da técnica por um motivo simples. A cárie e a doença periodontal são dependentes de biofilme, isto é, dependem de consórcios funcionais de microrganismos envolvidos em extensa matriz de proteínas extracelulares e dos subprodutos desse metabolismo. "Uma proposta terapêutica que elimine tais microrganismos resultará na remoção de um dos agentes causadores das doenças bucais mais prevalentes e incidentes", teoriza Giselle.


Exame radiográfico inicial

90 dias depois da aplicação
de TFD

Uma variedade de componentes celulares como aminoácidos (cisteína, histidina, tirosina), nucleosídeos (guanina) e lipídeos insaturados podem reagir com o oxigênio singleto, causando danos e morte celular programada ou morte de microrganismos cariogênicos ou periodonto­patogênicos.

De acordo com Giselle, para a utilização da terapia fotodi­nâmica nas lesões cavitadas de cárie dentária, é necessário um agente de fotossensibilização. Para este propósito podem ser utilizados cromóforos azuis, como o azul de toluidina ou o azul de metileno, e um laser de baixa potência com comprimento de onda no espectro vermelho da luz. A curva de absorção do cromóforo e a luz laser devem ser compatíveis para surtir o efeito desejado.

A TFD é indicada para lesões cavitadas abertas, após a remoção da dentina necrosada com curetas. Pode ser usada também em dentina afetada, ou mesmo como coadjuvante após remoção convencional de dentina necrosada e parte da dentina afetada. A técnica objetiva a desinfecção da dentina e ainda traz uma vantagem de bônus: a luz laser é bioestimulante para a formação da dentina.

Porém, a TFD tem suas limitações. Giselle explica que a técnica é contra-indicada em casos de alergias aos cromóforos, quando os sinais e sintomas denotam um processo inflamatório da polpa em transição ou de irre­versibilidade. A especialista também não recomenda seu uso quando o fator estético é condição primordial para o êxito do tratamento, pois pode manchar a dentina por alguns dias.

O fato de eliminar microrganismos cariogênicos da dentina e bioestimular a formação de dentina reacional evita uma remoção maior de tecido dental e acrescenta mais segurança ao tratamento. Isto classifica a TFD como uma autêntica técnica de mínima intervenção. "Ademais, pela propriedade de bioestimulação pode fazer parte dos procedimentos de escariação passo-a-passo, sendo, portanto, muito conservador para o tecido pulpar", explica a odontopediatra.

Como qualquer procedimento, seu raio de alcance vai até onde o bolso do paciente alcança. Segundo Giselle, a TFD não é um procedimento elitista. "O custo dos fármacos é irrisório, enquanto o de aquisição de um laser de baixa potência vem diminuindo a cada ano", comenta.

Para utilizar a TFD, o cirurgião-dentista precisa adquirir uma fonte de luz laser de baixa potência, que atualmente vem acoplada aos sistemas de clareamento por luz. O preço pode variar, em média, de R$ 2 mil a R$ 6 mil. O fotossensibilizante precisa ser compatível com o comprimento de onda da fonte de luz.

A maioria dos lasers tera­pêuticos no espectro vermelho da luz está na faixa de 635 a 660 nm de comprimento de onda e combinam com fotossen­si­bilizantes azuis, como azul de metileno e azul de toluidina. Uma embalagem com 100 ml de solução aquosa manipulada custa aproximadamente R$ 15,00. Giselle Rodrigues de Sant´Anna ressalta que o pó do agente deve ter alta pureza.

Outro ponto que conta a favor da popularização da técnica é o boom dos procedimentos de clareamento dental com luz. Com isso, muitos profissionais possuem uma unidade de luz contendo LEDs ( light emmiting diodes ) e laser de baixa potência. "Dessa forma, a operacionalidade e a relação custo-benefício são bastante interessantes para o profissional e paciente", avalia Giselle, que utiliza a TFD para tratar a dentina de todo paciente submetido à Dentística Operatória, salvo em casos de contra-indicação.

A maioria das pesquisas sobre TFD inclui ensaios em cepas bacterianas laboratoriais. Esses microrganismos se comportam frente à técnica de forma bastante diferente do que as bactérias presentes no microambiente do tecido afetado. "Os maiores avanços na pesquisa deverão se centrar em ensaios clínicos testando diversos fotossensibilizadores estáveis quimicamente e marcados para bactérias específicas, e novas tecnologias de luz", avalia a odontopediatra. Na área tecno­lógica, ela destaca o desenvolvimento de fármacos voltados para a terapia e novas fontes de luzes portáteis, capazes de serem usadas em campo, com baterias recarregáveis.

Serviço: Mais TFD
Outras informações sobre aplicações da TFD na Odontologia podem ser consultadas no site da empresa britânica Denfotex
( www.denfotex.com/products.htm ).

     
 

Gengiva iluminada

A desinfecção fotodinâmica também está sendo aplicada no combate à periodontite. A empresa canadense Ondine Biopharma lançou um protocolo de tratamento, o Periowave ( foto ), que pode ser utilizado pelo profissional após a raspagem de rotina. O cirurgião-dentista aplica o componente fotossenbilizante diretamente nas bolsas periodontais e ao longo da linha gengival do dente afetado. A luz laser é aplicada sobre a substância com ajuda de uma fibra ótica.

A reação de radicais livres que se segue destrói as bactérias e toxinas associadas aos microrganismos nocivos, como a colagenase. Segundo o fabricante, o procedimento leva 20 minutos para desinfectar a cavidade oral inteira.

Mais informações: www.ondinebiopharma.com.

 
     


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