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'Sacrilégio' no consultório

Capeamento pulpar indireto sepulta camada de dentina cariada sobre a polpa. A idéia de deixar bactérias no interior do dente ainda causa estranheza para bisnetos de Black


CD Fernando Borba
de Araújo

O capeamento pulpar indireto com remoção parcial de tecido cariado (CPI) é um procedimento no qual uma camada de dentina cariada é deixada intencionalmente sobre a polpa, apresentando-se como uma alternativa nas situações em que a completa remoção da dentina desmineralizada e infectada poderia resultar em exposição pulpar e conseqüente necessidade de uma intervenção endodô­ntica. É indicada quando não há relato de dor espontânea, o dente não apresenta mobilidade, não há alterações nos tecidos perio­dontais e radiograficamente não há evidência de patologia pulpar, periapiucal e/ou interradicular.

"Essa é uma técnica de fácil aplicação pelo profissional e apresenta altos índices de sucesso. Nos dentes decíduos, pode ser considerada como definitiva, sem a necessidade de reintervenção para a constatação do processo de paralisação", explica o professor adjunto, responsável pela disciplina de Odontopediatria e coordenador do curso de Pós-Graduação em Odontopediatria da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fer­nando Borba de Araújo. Ele lidera um grupo na instituição gaúcha que pesquisa a técnica em decíduos desde 1996.

O objetivo maior do CPI, explica Araújo, é promover a re­mineralização da dentina remanescente, interrompendo a progressão da lesão cariosa, e impedir um dano maior ao complexo dentino-pulpar. Além de maior preservação da estrutura dentária, a manutenção de tecido cariado na parede pulpar também contribui para menor agressão ao complexo dentino-pulpar, desencadeando um mecanismo de defesa através da formação de esclerose dentinária e de dentina dentina reparadora.

A primeira publicação do grupo, em 2002, comparou resultados clínicos e radiográficos do CPI em molares decíduos usando como material forrador o hidróxido de cálcio (HC) ou um sistema adesivo. Os 48 dentes pertencentes ao estudo foram acompanhados durante 24 meses, através de exames clínico e radiográfico e não foram reabertos para avaliação da dentina remanescente. Este estudo ran­domizado obteve 96% de sucesso no grupo teste (sistema adesivo - SMP-3M) e 83% no grupo controle (hidróxido de cálcio), não havendo diferença significativa entre os grupos, perfazendo um sucesso total de 90% após dois anos. Esta amostra foi acompanhada clínica e radiogra­ficamente por um período médio de 5 anos até a esfoliação dos dentes decíduos, observando um índice de sucesso de 80% para o grupo do HC, e 93%, para o do sistema adesivo, sem haver diferença estatísca significante entre estes. Adicionalmente, alguns espécimes do grupo do sistema adesivo foram avaliados ao microscópio eletrônico de varredura, onde foi analisada a interação do sistema adesivo com a dentina cariada remanes­cen­te, além de ter sido realizado um ensaio de microtração­, demonstrando valores próximos a 10 Mpa, suficientes para manutenção das restaurações adesivas (Z100-3M) até o período de esfoliação. Também em alguns dentes esfoliados foi feita uma análise histológica da polpa remanescente, que apresentou características de saúde pulpar.

Um segundo trabalho nesta linha de pesquisa realizado em 2001, em parceria com a professora do Departamento de Odontologia Preventiva e Social da FO-UFRGS Ma­risa Matltz, avaliou as reações clíni­cas, micro­biológicas e radio­gráficas de lesões profundas de cárie após CPI-RPTC, usando como mate­rial forrador o hidróxido de cálcio (grupo controle) e a guta-percha (grupo teste). Trinta e nove dentes foram submetidos ao CPI-RPTC (remoção completa de tecido cariado das paredes laterais e incompleta na parede pulpar) para avaliação da dentina remanescente,quanto à coloração e consistência, além da coleta de material para análise bacterio­lógica. Os dentes foram capeados de acordo com o grupo experimental e restaurados com resina composta (Z250-3M). Entre quatro e sete meses, esses dentes foram reabertos para avaliação clínica e nova coleta para análise microbiológica. No momento da reavaliação, foram encontradas alterações significativas quanto à coloração e consis­tência, em que o tecido inicialmente castanho claro e amolecido mostrou-se predominantemente castanho escuro e endure­cido, sendo esta última reação relacionada ao grupo do hidróxido de cálcio. Além disso, observou-se uma redução significativa no número de lactobacilos, estrepto­cocos do grupo mutans e do total de bactérias viáveis em aero­biose e em anaerobiose.

Em 2003, Ana Eliza Bressani, mestre em Odontopediatria pela UFRGS, avaliou a correlação entre coloração, consistência e contaminação da dentina cariada, antes e 90 dias após o CPI-RPTC, utilizando como material  capea­dor a cera (material inerte) e HC (hidróxido de cálcio). Ela encontrou uma correlação positiva entre coloração e contaminação da dentina antes do tratamento (quanto mais escuro estiver o tecido, mais contaminado), bem como uma correlação ne­gativa entre consistência e contaminação no período pós-tratamento (quanto mais endure­cido, menos contaminado). A autora observou que ambos os materiais foram capazes de reduzir significativamente a contami­nação da dentina após o tratamento, demonstrando que o objetivo principal da técnica do CPI-RPTC foi atingido, independente da utiliza­çãodo HC, não sendo configurada como uma técnica material dependente.

Juliana Marchi (2005), também aluna da pós-graduação da UFRGS, avaliou as características da dentina cariada remanescente de molares decíduos quanto à coloração e consistência, além de submetê-la ao teste de micro­dureza após um período médio de três anos e oito meses de permanência dos dentes na cavidade bucal, onde foi realizada a técnica do CPI-RPTC, na cavidade bucal. Treze dentes, submetidos ao capeamento pulpar indireto com remoção parcial do tecido cariado (CPI-RPTC), utilizado como material capeador o HC ou o cimento de ionômero de vidro resinoso modificado (Vi­tremer-3M), sofreram esfo­liação natural após o período acima citado ou exodontia por motivos orto­dôn­ticos, foram avaliados.

Além disso, foram selecionados 15 molares decíduos hígidos (grupo controle positivo) e 15 portadores de lesões cariosas ativas na metade interna de dentina (grupo controle negativo). As amostras do grupo teste (n=13) tiveram suas respectivas restaurações removidas, a profundidade medida e a dentina remanescente avaliada quanto à consistência e à coloração. Nos dentes do grupo controle positivo, foram realizados preparos cavi­tários oclusais em até 4 mm de profundidade, enquanto que, no grupo controle negativo, o mesmo operador do estudo clínico realizou a RPTC in vitro. A partir daí, todos os dentes foram preparados para análise de micro­du­reza. Os autores constataram a remine­ra­lização da dentina dos dentes decíduos em que foi realizada a técnica de RPTC após um período médio de 3 anos e 8 meses de permanência na cavidade bucal, através do critério clínico de consistência, onde todos os dentes do grupo teste mostraram-se endurecidos, e também do critério laboratorial de análise da microdureza, onde o grupo teste apresentou valores estatisticamente mais elevados do que o grupo dos dentes portadores de lesões cariosas.

Atualmente, Renata Franzon, orientanda de mestrado de Araújo no Curso de Mestrado da mesma instituição, investiga a remi­ne­ralização da dentina dos dentes decíduos já esfoliados submetidos ao CPI-RTPC pertencentes à mostra no trabalho desenvolvido por Alice Sousa Pinto em 2001, através de análise clínica e química, além do teste de microdu­re­za, mesma metodologia usada por Juliana Marchi em 2005.

Independe do material

Através desses trabalhos, o grupo da Odontopediatria da UF­R­GS conclui que a remoção parcial de tecido cariado e o imediato selamento da cavidade reduziram o estímulo proporcionado pelo crescimento bacteriano e pelos produtos decorrentes da sua metabo­lização, interferindo positivamente na progressão da lesão e promovendo uma reação fisiológica do complexo dentino-pulpar, com a formaçaão de dentina terciária. "Além disso, a paralisação da lesão ocorre independentemente do material utilizado como base forradora sobre a dentina cariada remanescente", observa Araújo. Esse posicio­namento é corroborado pela equipe do Grupo de Pesquisas de Mínima Intervenção da FO/USP, de acordo com Imparato.

Résume - Oral Health al Health

 New-Old Dentistry 

Techniques proposed decades ago but fit into the current concept of Dentistry of Minimum Intervention still lead the vanguard in treatment of carie lesion in the dentine. Nonetheless, they have not come into common use by the majority of Brazilian dental clinics, where less conservative procedures prevail. "Dentistry is probably the only profession that encompasses the functioning of the disease yet still prefers to remove the organ in stead of reverting or blocking it," observes professor of Pediatric Dentistry of the School of Dentistry of the University of São Paulo (FO/USP), José Carlos Imparato, one of the persons interviewed for this edition, the third in the series.

Among the list of "innovative" procedures specifically indicated for carie lesion in dentine are indirect pulp capping, sealing, ozone, chemical removal, and antibacterial cement, plus others.

 
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