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SUA SAÚDE
Alegria faz bem à saúde

Um sorriso alegre mostra bem mais do que um estado de espírito.
Indica também uma pessoa mais saudável e até com maior expectativa de vida.
E isso não é exagero quando vemos as constatações das influências do bom humor na prevenção de doenças cardíacas, e do nervosismo na prevalência delas

Estudo publicado recentemente na revista científica norte-americana Annals of Internal Medicine apontou que idosos que sofreram ataque cardíaco e contaram com o apoio emocional da família sobreviveram duas vezes mais do que os que encararam a doença sozinhos. Por outro lado, uma pesquisa publicada no jornal da American Medical Association mostrou que a depressão aumenta em cinco vezes as chances de morte após um infarto. Para Carlos Alberto Pastore, doutor em Cardiologia pela Faculdade de Medicina da USP e médico do Incor, “esses e dezenas de outros estudos nos mostram que, além de controlar o colesterol, verificar a pressão, deixar o fumo e adotar a atividade física, é importante acrescentar um novo e decisivo fator aos que influenciam as doenças do coração: a vida afetiva”.

Segundo Pastore, autor do livro Saúde – Dicas, Curiosidades, Esclarecimentos (veja pág.337), coletânea das orientações que dá diariamente aos ouvintes da Rádio Eldorado AM de São Paulo, os conflitos profissionais e familiares, entre outros, não

deixam baixar a pressão arterial e o colesterol, dificultam o fim do tabagismo e desregulam a alimentação. “Assim, a busca do equilíbrio psicológico ajuda a tratar as doenças do coração e a melhorar a qualidade de vida do paciente”, explica.

A literatura sobre o assunto não é extensa, mas as respostas nos ambientes de trabalho e familiar são cada vez mais evidentes: onde há bom humor, há mais saúde. As referências sobre a importância do humor são destacadas na filosofia, no teatro, nos livros, no cinema e na psicologia. E, para Pastore, até pela Medicina: “As observações médicas relatam que o humor, o riso, têm um grande componente de relaxamento liberando hormônios cerebrais que deixam os indivíduos mais confortáveis. Esse relaxamento, esta forma de não levar tudo a sério, nos protege das doenças cardiovasculares tão presentes nas pessoas rígidas, reprimidas e incapazes de um sorriso”.


Cardiologista Carlos Alberto Pastore

Mau humor de partir o coração

Se, por um lado, o bom humor faz bem à saúde do coração, por outro, o mau humor pode ser extremamente danoso, especialmente quando leva à síndrome do coração partido.

Cientificamente conhecida como cardiomiopatia de Takotsubo, a síndrome foi descrita no periódico científico New England Journal of Medicine. Num momento de muita tensão ou discussão, o coração “simplesmente” não agüenta e se parte - romântico, mas grave. O termo “partido” é usado porque, de fato, o coração se divide em duas partes ao ser formado um aneurisma, uma espécie de balão. Não é doença das artérias coronárias, e o mais intrigante é que a causa da quebra do coração é um distúrbio dos estímulos nervosos com muita adrenalina desencadeada por uma descarga neuro-hormonal exagerada no coração. O quadro leva a uma perda transitória da função cardíaca, como um infarto do miocárdio, sem obstrução das artérias coronárias, e que pode ser até fatal. O lado bom é que o fenômeno é reversível se tratado cedo, podendo evoluir sem grandes cicatrizes, recuperando-se a parede que formou o aneurisma.

Mas não é só nos momentos de impulsividade que o coração fica vulnerável ao mau humor. Característica mais forte da distimia, transtorno mental que se manifesta por meio da mais perene rabugice, o mau humor crônico é associado, constantemente, à irritabilidade fácil, baixa auto-estima, cansaço crônico, tendência ao isolamento, emagrecimento, agressividade e dificuldade para dormir.

Provocada por características genéticas, psicológicas e ambientais, a distimia caracteriza-se pela alteração das substâncias envolvidas nos processos de transmissão cerebral que permitem as emoções, como a serotonina e a noradrenalina. Os sintomas corporais são muito freqüentes, como dores nas costas, na cabeça e no abdômen, e alterações na pressão arterial. O problema é de saúde pública: a distimia pode predispor à depressão, doença que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), deve ser a segunda maior causa de mortalidade na próxima década.

Ainda segundo a OMS, 70% dos adultos com depressão tiveram distimia na infância ou na adolescência. O diagnóstico é difícil e a distimia pode ser confundida com outras doenças, principalmente nos jovens. “Desta forma, observar as modificações do humor e procurar ajuda especializada quando as dificuldades forem persistentes são as orientações para se evitar processos mentais graves tanto nos adultos como nos jovens”, aconselha Pastore. O cardiologista alerta que a própria depressão representa sério risco à saúde do coração. “O diagnóstico da depressão nos indivíduos que já sofreram infarto do miocárdio, derrame ou foram operados do coração é fundamental. A presença de depressão nestes pacientes piora o prognóstico, pois dificulta o exercício, os cuidados alimentares e tira a vontade de viver. A associação entre depressão e coração deve ser investigada e prontamente tratada”, orienta Pastore.

Apesar de se saber que a depressão surge com a queda do neurotransmissor serotonina e que quando se consegue aumentar a sua quantidade é só esperar a felicidade chegar, o problema não é tão simples como parece, pois os especialistas não acreditam no “desequilíbrio químico” para explicar os sintomas dos deprimidos. “As nossas emoções não são regidas por uma única substância, e, desta forma, a explicação simplista da importância da serotonina é, no mínimo, parcial. As nossas crises com momentos de depressão são maneiras de crescimento emocional mesmo que para tanto haja algum sofrimento. Algumas depressões são normais pelos problemas da vida e é necessário enfrentá-las”, pondera o cardiologista.
Para ele, não há dúvida que em alguns casos de depressão prolongada, com sintomas muito profundos e com grande dificuldade para sair da crise, as medicações são eficientes e adequadas. “Mas a medicação não está à venda para nos tornar felizes, pois este conceito é muito mais amplo. Estão para evitar depressões graves. Profissionais como psiquiatras e psicólogos são muito importantes para nos ajudar a sair das crises, com medicação ou não”, recomenda.

 

Somatizando as emoções

O coração fica vulnerável às alterações de humor quando as emoções passam a ser somatizadas. “Quando passamos por momentos importantes de tristeza, ansiedade, raiva, problemas afetivos, estresse, o nosso organismo reage em conjunto com uma sensação baixa da resistência. A gripe arrastada, o herpes labial e uma gastrite, por exemplo, são formas de apresentação destas situações que enfraquecem as nossas defesas”, enumera Pastore. As tensões crônicas desencadeiam mudanças na temperatura do corpo, no processo da digestão, na pressão arterial, nos batimentos cardíacos, na respiração e na sexualidade, entre outros. Desta forma, os conflitos que não encontram espaço para serem resolvidos na mente são transferidos para o corpo.

A explicação científica para a somatização decorre do fato de que o estresse e a ansiedade provocam alterações no nosso organismo, aumentando ou diminuindo a

fabricação de hormônios como o cortisol e a adrenalina e da serotonina. Estas variações provocam os distúrbios corporais descritos e são responsáveis por sintomas que aparecem em várias áreas do corpo. As mais frágeis, aquelas que já foram agredidas no passado, são as regiões mais atingidas, embora a somatização seja própria de cada pessoa. “Não há dúvida de que os somatizadores são aqueles com pouco trabalho mental, só voltados para o mundo externo, não acreditando nos processos emocionais. Estas pessoas são voltadas para o ter e muito pouco para o ser, tendo restrições aos tratamentos psicoterápicos. O difícil é que, para evitar a somatização – por vezes fatais, como num infarto do miocárdio –, as medidas preventivas dependem mais da própria pessoa do que do médico, e as mudanças são duras, sofridas e mexem na origem dos problemas”, explica Pastore. O cardiologista aconselha que o tratamento médico da distimia ou de qualquer alteração no humor seja acompanhado de suporte psicológico.

 

Tranqüilizante natural

Outra comprovação clínica que tem sido confirmada cientificamente é o potencial de alívio do sofrimento físico que o choro proporciona. “Ao chorar, liberamos substâncias químicas capazes de nos dar alívio imediato. Esta sensação é desencadeada por momentos emocionais que sensibilizam o nosso cérebro a liberar os neurotransmissores, que transportam as informações para as áreas que controlam as glândulas lacrimais”, explica Pastore, que recomenda o choro como aliado dos tratamentos de doenças.

Além de aliviar sensações estressantes, o choro libera hormônios que têm a capacidade de anestesiar dores mais intensas, agindo como uma morfina natural. A prolactina, hormônio mais presente nas mulheres e fabricado pela hipófise quando aumenta a tensão e as emoções ficam “à flor da pele”, é liberada após o choro e alivia o excesso acumulado. Mas Pastore alerta para os excessos.

“As pessoas que percebem o choro muito fácil, por situações banais, podem estar iniciando um processo de depressão e devem procurar um especialista”.

O choro para aliviar, o riso, a alegria e os hábitos saudáveis de um lado. De outro, tabagismo, estresse, colesterol e sedentarismo. No meio desse fogo cruzado estão corações e mentes, muitas vezes mais sensíveis e frágeis aos fatores do mal do que os do bem, pela rotina apressada e cobrança da vida moderna. Cabe aos pacientes ter responsabilidade, disciplina e consciência para dar mais atenção aos cuidados com seu coração e sua saúde e, assim, construir uma vida com mais qualidade, mais tranqüila e também mais prazerosa e divertida.

 

SAIBA MAIS
Site do cardiologista Carlos Alberto Pastore:
www.drpastore.com.br
Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da USP:
www.incor.usp.br
Sociedade Brasileira de Cardiologia:
www.cardiol.br
Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo:
www.socesp.org.br


Saúde encadernada

As orientações diárias que o cardiologista Carlos Alberto Pastore dá aos ouvintes da Rádio Eldorado AM, em São Paulo, foram reunidas no livro Saúde – Dicas, Curiosidades, Esclarecimentos, editado pela FTD. São 366 conselhos sobre temas variados, de cardiopatias a doenças co¬mo diabete e Aids, além do que o cardiologista chama de “química sentimental”, referência às alterações que as emoções acarretam no organismo.

Em comum, além de pertencerem à área da saúde, os assuntos têm o tratamento descontraído dado pelo autor: dietas, medicamentos, doenças, prevenção, estresse, qualidade de vida e comportamento psicológico são apresentados de forma didática, bem humorada e de fácil entendimento. Os problemas do coração têm atenção especial do cardiologista, que dedica vários capítulos do livro aos fatores de risco para cardiopatias, chamando a atenção para o estilo de vida do leitor.



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