menu

    

O FUTURO DA ODONTOLOGIA
Um desafio à Odontologia
Antonela Tescarollo

O caminho mais curto para levar saúde bucal a todos pode estar na Promoção da Saúde, que se propõe a ver o indivíduo dentro do seu meio social, com enfoque humanizado e além do tecnicismo. O Brasil já vem acompanhando este modelo, mas muitas mudanças ainda se impõem à Odontologia e aos profissionais


Léo Kriger: Promoção da Saúde como modelo de trabalho
Levar saúde bucal a todos os brasileiros, considerando suas grandes diferenças e desigualdades, é bem mais do que oferecer assistência odontológica e divulgar informações à população simplesmente. A solução para este ideal, sem dúvida, passa pela Promoção da Saúde, conceito amplo e que abrange ações de diversas ordens. Para o cirurgião-dentista Léo Kriger, coordenador da Especialização em Odontologia em Saúde Coletiva da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), professor da Universidade Tuiuti do Paraná e mestre em Odontologia Preventiva e Social pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Promoção da Saúde precisa ser pensada como modelo de trabalho, incorporado como filosofia de atuação dos profissionais.

“Para muitos, a Promoção da Saúde confunde-se com prevenção e educação, limitando o campo de atuação e restringindo-o a ações de menor importância. Mas este conceito também exige do profissional um amplo conhecimento científico, pois, além de ações educativas e preventivas, engloba o controle das doenças, o tratamento das seqüelas, a reabilitação e a manutenção da saúde do indivíduo ao longo de sua vida”, explica Kriger.

Além disso, um dos princípios da Promoção da Saúde é o enfoque ético e humanizado, que coloca a saúde do paciente acima do procedimento técnico e da simples cura da doença. Portanto, estas ações se contrapõem ao tecnicismo que, em grande parte, norteia a prática odonto­lógica. “Falar em Promoção de Saúde Bucal exige uma mudança de conceitos e valores. Significativa parcela da população não tem acesso à Saúde Bucal de qualidade e cabe a nós mudar esse quadro, respeitando as suas desigualdades sociais, culturais e econômicas. Esse é o grande desafio da Odontologia brasileira neste início de século”, opina Kriger.

Mudanças no front

Ampliar e democratizar a cobertura odontológica no País é necessário, obviamente, para que todos tenham uma boa saúde bucal. E isso já vem efetivamente acontecendo desde a implantação do Programa Brasil Sorridente em 2004. Mas, dentro da concepção de Promoção da Saúde, a atenção também deve ser vista de outra forma e passar por mudanças.

“A inversão da lógica do atendimento parece ser um ponto fundamental. Se entendermos a cárie dentária e a doença periodontal como doenças mesmo, passaremos a nos preocupar muito mais com o controle delas do que com atividades meramente restauradoras e cosméticas”, completa o mestre em Odontologia Social.

Kriger ainda lembra que muitas das ações de controle dessas duas doenças podem ser realizadas fora do ambiente clínico, com medidas simples e eficazes. E ele dá um exemplo: um programa de controle da doença cárie feito em larga escala, que não seja apenas focado em restaurações nem sempre eficazes, permitiria o aumento da cobertura e a mudança do enfoque atual. O cimento de ionômero de vidro, por suas propriedades, seria um importante aliado, com o fechamento inicial das cavidades, o reequi­líbrio do meio bucal, a educação do paciente e, depois de um período, a restauração definitiva. “Com isso, aumentaríamos a oferta de serviços, trabalhando sobre os fatores causais da doença e mudando a percepção da própria população sobre a Odontologia e sua saúde bucal”, afirma.

Sob o ponto de vista da Promoção da Saúde, não são só as políticas públicas e a gestão que devem mudar, mas, também, a preparação e a atuação do cirurgião-dentista e dos outros profissionais de Odontologia, que estão na ponta do atendimento à população e são os responsáveis diretos por disseminar a saúde bucal. O ideal é mesclar o conhecimento científico e a técnica com o desenvolvimento de habilidades humanas mais refinadas.

Trabalho em equipe

No Brasil, a atenção primária em Saúde Bucal , no âmbito da Saúde Pública, passou a ser in­serida na estratégia Saúde da Família, a partir da implantação do Brasil Sorridente, através da criação de Equipes de Saúde Bucal (ESBs). Logo, o programa prevê a atuação dos profissionais conforme as diretrizes da estratégia, implantada pelo Ministério da Saúde na estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS), em 1994, com o propósito de superar o antigo caráter centrado exclusivamente na doença e voltado a práticas gerenciais e sanitárias mais democráticas e participa­tivas e ao trabalho de equipes pro­fissionais dirigidas às populações de territórios delimitados.

Assim, pelo menos em tese, o atendimento odontológico no Brasil vem buscando se nortear por princípios de Promoção da Saúde. O cirurgião-dentista Léo Kriger concorda. “A estratégia Saúde da Família aponta para a formação de um profissional ge­neralista, com visão ampliada, capaz de entender a lógica do processo saúde-doença e apto a solucionar a maioria das necessidades clínicas dos membros das famílias.” E sobre a atuação específica deste profissional, o CD completa: “Como ele se torna peça do complexo das relações familiares, compartilhando da casa e da comunidade, é exigida dele uma flexibilização para adaptação diante das mudanças”.

Esse maior contato e proximidade com a realidade do paciente brasileiro, considerando o contexto social e econômico do País, coloca ainda mais à prova o “jogo de cintura” dos cirurgiões-dentistas, técnicos em higiene dental e auxiliares de consultório dentário. Nessas condições, os profissionais têm que aprender a lidar com fatores muito fortes e determinantes, como violência, miséria, falta de educação de ba­se, entre outros.

Para Kriger, a promoção pela estratégia Saúde da Família procura atender a essa problemática ao fazer com o que os agentes co­nheçam o indivíduo em seu meio social, junto de sua família e comunidade, antes de conhecer sua doença. “No contato direto é mais fácil abordar temas como violência e educação, oferecendo informações capazes de melhorar sua condição de vida.”

Na base da formação

Mas ao falar de mudanças no modo de atuação do profissional de Saúde Bucal, para que seja mais voltada à Promoção da Saúde, inevitavelmente se deve falar da formação do cirurgião-dentista brasileiro. “Embora haja um esforço da maioria das universidades em adaptar sua estrutura curricular e conteúdos progra­máticos, existe ainda um desa­juste entre a prática e a informação acadêmica”, avalia Léo Kriger. O especialista em Odontologia Social também diz que o modelo de Promoção da Saúde está começando agora a ser valorizado pelas instituições de ensino, mas ainda há um longo caminho para que ele seja efetivamente adotado pelos profissionais.



Voltar ao índice da Revista
Untitled Document



 
 
 




 

Copyright © 2005 ABO - Associação Brasileira de Odontologia. Melhor se visualizado com resolução de 1024 X 768.
Todos os direitos reservados. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização.