Para que o ideal de acesso pleno à Saúde Bucal seja uma realidade futura, o presente precisa ser avaliado. Analisar os números da Odontologia atual pode ajudar a iluminar as reflexões sobre o futuro e apontar para caminhos de sucesso

Manfredini: exigir que governos cumpram obrigação de assegurar Saúde Bucal a todos |
Segundo o Conselho Federal de Odontologia (CFO), o Brasil tem mais de 217 mil cirurgiões-dentistas em atividade, o que equivale a um profissional para cada 856 brasileiros. Com a abertura de novas faculdades, esse número tende a crescer. O CD Marco Antonio Manfredini, pesquisador da Faculdade de Saúde Pública da USP e assessor técnico parlamentar da Câmara Municipal de São Paulo, chama a atenção para aspectos negativos dessa relação numérica profissionais/pacientes, que poderiam comprometer o ideal de amplo acesso à Saúde Bucal. "Isso é devido a um erro conceitual: essas relações estabelecem proporções entre |
o número de CDs e a população total. Entretanto, a maior parte dos CDs brasileiros trabalha no setor privado, o que acaba excluindo os brasileiros que não dispõem de recursos financeiros para pagar pelo consumo destes serviços", argumenta.
Quando analisados mais profundamente, os dados apontam para uma outra realidade preocupante: a distribuição de profissionais por Estado está desequilibrada. No Maranhão, que tem o pior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) do País, há uma média de 3 mil pessoas por CD. Já São Paulo tem, apenas, 600 pessoas por profissional. Em relação ao número de faculdades em cada Estado , as diferenças também são grandes: são 50 em São Paulo , a grande maioria da rede privada de ensino, contra três no Maranhão; em Minas Gerais , existem 22 cursos de Odontologia; no Espírito Santo, três.
Num outro enfoque, o Ministério da Saúde propõe como ideal uma Equipe de Saúde Bucal (ESB) para cada mil famílias. Esta equipe pode ser composta por CD, auxiliar de consultório dentário e técnico em higiene dental, com jornada de oito horas de trabalho diárias. Manfredini vê com bons olhos a política de Saúde Bucal atual, e aponta para a lei, para visualizar o futuro ideal da Odontologia: a Saúde Bucal ao alcance de todos. "Dispomos de dois instrumentos legais que, se fossem cumpridos, contribuiriam para este objetivo. O primeiro é o Artigo 200 da Constituição da República Federativa do Brasil, que estabelece como competência do Sistema Único de Saúde (SUS) a ordenação da formação de recursos humanos na área de Saúde. Outro dispositivo não implantado em sua plenitude é o cumprimento da Resolução CNE/CES 3/02, que institui Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Odontologia. Garantir o cumprimento destas proposições poderia ser um bom começo para esta mudança", sugere.
Além da preocupação com a qualidade das faculdades de Odontologia, o crescimento da quantidade de cursos já é um problema presente e poderá se agravar ainda mais no futuro. Segundo o CFO, em dezembro de 1996 existiam 90 cursos de Odontologia no País, formando uma média de 8,5 mil profissionais por ano. Hoje este número saltou para 188 cursos, diplomando, em média, 15 mil profissionais por ano.
Para Manfredini, os números preocupam, mas há saída para o ideal de acesso à Saúde Bucal por parte de todo brasileiro. "Para tornar este direito possível, deveríamos iniciar de imediato um movimento para exigir que os governos estaduais e municipais cumpram com suas obrigações constitucionais de assegurar Saúde Bucal a todos. Este direito de cidadania deve ser propiciado pelas três esferas de governo". Ele cita o Brasil Sorridente para avaliar que, "se os Estados e os municípios houvessem aumentado os seus gastos em Saúde Bucal na mesma razão que o governo federal, teríamos a possibilidade de assegurar um maior acesso aos serviços públicos odontológicos, além de viabilizar a contratação por concurso público de dezenas de milhares de CDs, auxiliares e técnicos, para o desempenho destas funções".
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