Para Capel, promoção não se opõe à prevenção. Ao contrário. Confere à prevenção de doenças um sentido mais abrangente, que aponta à Promoção da Saúde.
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Ele é referência nacional e internacional quando o assunto é Saúde Pública. Paulo Capel Narvai concluiu o doutorado em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP) em 1997. É graduado em Odontologia pela Universidade Federal do Paraná (1978). Atualmente é Professor Titular da FSP/USP. Tem 17 livros publicados. É consultor do Ministério da Saúde desde 1977, coordena o Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Universidade de São Paulo e representa a USP no Conselho Municipal de Saúde de São Paulo. |
Revista ABO Nacional - A cárie é histórica no Brasil, desde o início da colonização, da cana-de-açúcar. Cinco séculos depois, quanto a saúde bucal avançou? Quanto ela teria que avançar para alcançar o patamar de saúde bucal para todos? É possível enxergar uma luz em que túnel do tempo?
Paulo Capel Narvai - A Saúde Bucal avançou muito no Brasil. Nosso cenário epidemiológico do início do século XXI é radicalmente distinto do final do século passado, em relação à carie dentária, por exemplo. E, sobretudo, entre as crianças. Mas esses avanços ainda não se estenderam para adultos e idosos. Tenho esperança de que nas próximas décadas consigamos manter essa conquista, pelo menos em parte, nesses grupos de mais idade. Mas a cárie é uma doença vulnerável às intervenções de Saúde Pública, como a fluoretação das águas e dos cremes dentais, e também aos progressos socioeconômicos. Não avançamos da mesma forma, contudo, em relação às doenças periodontais e ao câncer de boca. Essas doenças são bem menos sensíveis às ações de Saúde Pública. Apesar dos avanços, persistem no Brasil, mesmo em relação à cárie, profundas desigualdades epidemiológicas. Convivemos com padrões típicos dos países escandinavos em certas regiões do Sul, com quadros dramáticos em certas regiões da zona rural do Norte e Nordeste. Essas desigualdades seguem produzindo níveis muito altos de perdas dentárias. Teremos de avançar muito até nos igualarmos aos padrões apresentados hoje por países da Europa ocidental, por exemplo. E, para isso, é fundamental que o Estado brasileiro, com ações desenvolvidas nos níveis federal, estadual e municipal, assuma suas responsabilidades como ente garantidor do acesso aos serviços odontológicos e do direito à saúde bucal.
Revista ABO Nacional - Promoção da Saúde – e não mais prevenção apenas – parece ser o novo lema da Odontologia Coletiva e Individual. O que tem que mudar na prática profissional, na formação do cirurgião-dentista, na aplicação do flúor, nas políticas de saúde, na gestão de recursos e no modelo do SUS para este esforço ir da teoria à prática?
Paulo Capel Narvai - Já há alguns anos estamos fazendo um grande esforço no Brasil para dar esse “salto” da mera prevenção para a Promoção da Saúde. É significativo que há quase duas décadas a nossa Aboprev, que nasceu como Associação Brasileira de Odontologia Preventiva, tenha alterado sua denominação, por decisão da ampla maioria dos seus sócios, em assembléia realizada em São Paulo , para Associação Brasileira de Odontologia de Promoção da Saúde. A sigla se manteve mas a alteração do nome tem grande significado. Expressa a compreensão dos especialistas da área de que não basta, nos dias atuais, falar e fazer prevenção. É preciso ir além e, articulando ações em outros setores, além da Odontologia, lograr promover a saúde. A Promoção da Saúde é, por definição, algo que transcende a própria Odontologia, e mesmo o setor Saúde, pois requer ações em vários setores, como educação, habitação, alimentação, ambiente etc. Parece-me necessário, porém, assinalar que promoção não se opõe à prevenção. Ao contrário. Confere à prevenção de doenças um sentido mais abrangente, que aponta para a Promoção da Saúde. Ou seja: coloca em primeiro plano a conquista e manutenção da saúde. Antes até de pensar em ações preventivas, com o foco na doença, deve-se pensar e agir em termos de promoção da Saúde, com o foco posto, portanto, na manutenção de ambientes saudáveis, ações governamentais que produzam socialmente condições favoráveis à saúde, ações não-governamentais que promovam os indivíduos, facilitando-lhes o desenvolvimento pleno, harmonioso. Por certo que tudo isso tem a ver com a formação de profissionais de Saúde, portanto, de cirurgiões-dentistas. Felizmente aqui no Brasil, apesar dos nossos graves problemas sociais, a Promoção da Saúde vem tendo uma excelente acolhida. Principalmente, vem se desenvolvendo por meio de centenas de experiências municipais em que as políticas públicas convergem para a Promoção da Saúde, numa dimensão coletiva, como têm de ser essas ações. São conhecidas as experiências de municípios tão díspares quanto Curitiba e Sobral, para ficar em apenas dois exemplos mais conhecidos. As conferências de Saúde, por outro lado, inclusive as específicas de Saúde Bucal, têm sido fóruns importantes para o debate dos rumos que a Promoção da Saúde vem tomando no Brasil.
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