Foco de todas as preocupações em torno da Saúde Bucal, da Promoção da Saúde e do que o futuro pode trazer de benefícios para a população, o paciente – aqui retratado em casos de três famílias – fala da realidade vivida por milhões de brasileiros: crescimento da consciência sobre saúde bucal através das gerações; falta de informações e de conhecimentos sobre ações básicas de higiene oral e dos sistemas de saúde bucal públicos e, quando usuário deles, o sonho de ser atendido conforme as necessidades ou, se privados, com preços acessíveis; além da aspiração por planos odontológicos baratos que possibilitem ótima assistência.
Uma história de 90 anos

|
A família Cruz, de São Paulo, é um exemplo dos problemas e da evolução da Saúde Bucal entre a população brasileira. De seu Benedito, 90 anos, até seu bisneto Yan, 2 meses, foi um longo caminho que exibe desde as extrações corriqueiras do passado até a desinformação em boas práticas de higiene bucal já na gestação e no nascimento. |
Seu Benedito - Aposentado, três filhos, próteses móveis inferior e superior, seu Benedito visitou um cirurgião-dentista pela primeira vez aos 16 anos. Mas o resultado foi a extração de quatro dentes e a colocação de um pivô. Só voltava ao consultório, particular, quando tinha dor e para extrair mais um dente. Aos 25 anos colocou ponte móvel superior e aos 60, prótese total. Hoje faz higiene bucal e escovação da prótese, mas não manutenção.
Victor - Filho de seu Benedito, 60 anos, diagramador, dois filhos. Dos 8 aos 11 anos, ia ao dentista somente para extrações e curativos. Entre os 11 e os 16 anos, extraiu três dentes. Visitas ao dentista eram feitas em casos de extrema necessidade, por causa do custo. Após os 16 anos, as restaurações tornaram-se mais freqüentes, mas por ter passado muito tempo sem assistência dentária adequada, até os 38 anos perdeu outros cinco dentes. A partir dos 40 anos visita o dentista uma vez por ano, procura manter em boas condições os dentes que sobraram e tem o sonho de fazer, pelo menos, quatro implantes para facilitar a mastigação. Mas para isso, está guardando dinheiro para enfrentar a despesa, que não é pequena.
Cauê - Neto de seu Benedito e filho de Victor, 30 anos, é professor e foi ao dentista pela primeira vez aos 6 anos de idade para fazer pequenas restaurações. Porém, já recebia orientações na escola e cuidados em casa sobre higiene bucal. Aos 12 anos passou a usar aparelho ortodôntico para alinhar as arcadas dentárias, com bons resultados em poucos anos. Vai uma vez por ano ao dentista, particular, tendo sido orientado a procurar um periodontista, o que vai fazer em breve. Mantém todos os dentes, ao contrário do pai e do avô na mesma idade.
Yan - Quarta geração do clã Cruz, é filho de Cauê e nasceu em 16 de fevereiro de 2008. Pais não receberam orientação do pediatra no sentido de procurar um dentista “por ser ainda muito cedo nessa idade”. Pretendiam levá-lo quando nascesse o primeiro dentinho, mas, alertados por Victor – que tem acesso, hoje, a informações sobre saúde bucal –, vão marcar consulta com odontopediatra. Um bom começo para Yan. Sua família, no entanto, vê com preocupação os próximos anos, tanto para manter a saúde bucal do pequeno Yan como pelos custos que isso acarreta. O ideal, para a família Cruz, seria que os convênios odontológicos pudessem cobrir essa carência.
Juan Pablo, com todos os dentes

|
José de Arimatéia de Souza, 35 anos, o Ari, sua mulher, Maria Eunice da Silva Souza, 28, e o filho de 6 anos, Juan Pablo, formam uma família padrão: vinda da Paraíba, ele zelador em São Paulo , ela dona-de-casa, e o garoto Juan Pablo estudando em escola pública. Ari, com extração de dois dentes, faz escovação três vezes ao dia, após as refeições. Eunice, já tendo perdido dente, vai agora ao |
cirurgião-dentista preventivamente, sempre procurando locais privados de custos acessíveis. Juan Pablo já segue um novo caminho, nos poucos anos de vida: quando ainda bebê, a pediatra orientou seus pais sobre a correta higienização da boca. Desde os 4 anos em escola pública, ganha kit de escovação e recebe cuidados preventivos com a presença de um CD uma vez por mês na escola e já está criando hábitos de higiene bucal.
No entanto, esta família, que poderia se beneficiar do atendimento odontológico do Brasil Sorridente/SUS, sequer tinha conhecimento dessa possibilidade, até o momento desta entrevista. Ari, que com razão acha “caro” ir ao dentista, o que inviabiliza o tratamento e o acompanhamento, afirma que no caso de haver assistência do governo, mesmo em locais distantes, irá procurar o serviço. “Temos que ter cuidado. Quero meu filho com todos os dentes na boca”, diz esperançoso.
Melhorias, para que histórias não se repitam

|
Sidnéia Azarias, diarista de 35 anos, costuma procurar o cirurgião-dentista quando sente alguma dor, assim como muitos brasileiros. O primeiro passo é ir ao posto de saúde, mas caso lá o tratamento necessário não seja oferecido ou a dor maior que o tempo de espera, ela faz uma pesquisa entre os conhecidos e vai “no mais barato”.
Ano passado, Sidnéia passou por isso, mas, dessa vez, indicaram-lhe o Centro de Especialidades Odontológicas (CEO), ligado ao Programa Brasil Sorridente, de Osasco (SP), cidade onde mora. “A clínica é muito boa e o atendimento também. Tirei o raio X no mesmo dia e viram que eu tinha que fazer o tratamento de canal, mas a fila de espera era de um a dois |
anos”, conta ela, que, diante disso, procurou um CD particular. Sidnéia também conta que o CEO de Osasco é o único na região, por isso atende a uma demanda tão grande, proveniente, muitas vezes, das cidades próximas.
Apesar de não ter conseguido fazer o tratamento na rede pública, o atendimento recebido já foi um pouco melhor do que quando Sidnéia tinha 15 anos e uma cirurgiã-dentista da rede pública extraiu vários dos seus dentes, ao invés de tratar um único que doía. Em decorrência disso, aos 18 anos, ela já usava prótese total na arcada superior.
Seus filhos, Laiane, de 13 anos, e Leandro, de 5, também recebem hoje uma atenção melhor do que a que ela teve. Cerca de uma vez por mês, um grupo de cirurgiões-dentistas vai à escola para examinar os alunos e dar orientações em saúde bucal. No caso dele, o serviço é oferecido pela prefeitura, e no dela, faz parte de um programa da Universidade de São Paulo.
E as ações dão resultado: “Eles já são mais conscientes sobre a importância de escovar os dentes e eu nem preciso falar para eles fazerem”, conta orgulhosa. Mas Sidnéia espera que a situação melhore ainda mais. “Eu gostaria de colocar implantes, mas ainda é muito caro para mim. Quem sabe um dia fica mais acessível.” |