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O FUTURO DA ODONTOLOGIA
Juventude com dentes saudáveis e brilho no olhar

Formação para a cidadania e envolvimento da comunidade nas políticas públicas de saúde bucal transformam cirurgiões-dentistas em educadores e ajudam a garantir que os jovens de hoje tenham condições de sorrir no futuro


Salete Maria Pretto,
da PUC-RS e EAP-ABO/RS

Segundo os dados epidemiológicos apresentados pelo Levantamento das Condições de Saúde Bucal da População Brasileira (SB Brasil), realizado em 2003 pelo Ministério da Saúde com o suporte da ABO, crianças de 12 anos de idade apresentam CPOD de 2,8, sendo que, ao final da segunda década de vida, o jovem dobra sua experiência de cárie, apresentando CPOD em torno de 6,2. Para a odontopediatra Salete Maria Pretto, doutora em Odontologia de Saúde Coletiva pela Universidade Federal Fluminense (UFF), professora titular da Faculdade de Odontologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e coordenadora do curso de especialização em Odontologia de Saúde Coletiva da Escola de Aperfeiçoamento Profissional da Seção Rio Grande do Sul da ABO (EAP-ABO/RS), a falta de atenção básica aos adolescentes é o que contribui para este elevado índice. "Em relação ao atendimento privado, os dados não possibilitam melhor avaliação, mas se observarmos a distribuição do processo saúde/doença bucal no SB Brasil, percebemos que as regiões Sul e Sudeste possuem melhores condições que a média nacional", analisa Salete, relacionando o problema a fatores sociais e econômicos.

Para minimizar os efeitos da distribuição irregular da atenção à saúde do jovem no Brasil e garantir um futuro com mais saúde bucal para a juventude de hoje, Salete defende ações de empoderamento da sociedade e controle social, tendo o próprio jovem como importante agente de transformações. "Temos que agregar a inclusão do jovem, criando espaços de convívio ao redor da Unidade Básica de Saúde (UBS), áreas para reunião da comunidade, para a prática de esportes, biblioteca comunitária, ensino profissionalizante etc., de forma que se esqueça que a UBS algum dia foi uma área de tratamento, de dor, de seqüelas, dando origem a uma nova UBS, que inclui, promove a saúde e não a doença, cuida da vida e do futuro", diz a especialista.

Bases legais para uma juventude saudável

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece como prioridade absoluta a efetivação de direitos referentes à vida e à saúde, remetendo o atendimento de necessidades de saúde ao de necessidades humanas elementares. "O ECA representa uma importante base legal para a reivindicação de atendimento integral ao adolescente como forma de impactar o perfil epidemiológico e diminuir a demanda reprimida de atendimento odontológico nesta faixa etária", aponta Salete. Ela considera a Política Nacional de Saúde Bucal, o Brasil Sorridente, um avanço na superação do problema, especialmente com as recentes ampliações das Equipes de Saúde Bucal (ESBs) no Programa Saúde da Família (PSF) e com a criação de mais Centros de Especialidade Odontológica (CEOs). "Esses programas possibilitam o trabalho em equipes inter­dis­ci­plinares através de uma rede de atenção básica articulada a uma rede de serviços, e como parte indissociável desta, onde a integralidade das ações articula o individual ao coletivo, a promoção e a prevenção com o tratamento e a recuperação da saúde como um todo."

Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, adotou-se no Brasil uma perspectiva de democracia representativa e participativa, incorporando a participação da comunidade na gestão das políticas públicas - princípio defendido para que o ideal de atendimento odontológico e promoção da saúde bucal para crianças e jovens sejam alcançados. "Mas, para tanto, é fundamental dar visibilidade aos programas estabelecidos pelas políticas públicas, para que os jovens e os responsáveis pelas crianças tenham acesso ao conhecimento de seus direitos de cidadania e ações educativas, permitindo, assim que a saúde seja percebida como produto das condições gerais de vida e da dinâmica das relações sociais, econômicas e políticas do País, onde o controle social é imprescindível para a efetivação de políticas, como o ECA e o SUS", pondera Salete.

Controle social pressupõe a participação da sociedade no acompanhamento e na verificação das ações da gestão pública na execução das políticas públicas, avaliando objetivos, processos e resultados. O processo envolve a divisão de responsabilidade entre famílias e equipes de saúde na devolução de resultados, como contrapartida do exercício do direito a ter a proteção do Estado garantida, e a possibilidade de usufruir destas políticas públicas como garantia de qualidade de vida.

 

Que cidadão quero ser?

Esta é a pergunta que, para a odontopediatra Salete Maria Pretto, todo jovem deveria se fazer. A resposta, defende ela, é fundamental para a compreensão da saúde bucal como uma forma de ampliação de sua autonomia, permitindo-lhe usufruir a vida com plena qualidade. "Isto é pensar no seu futuro tendo consciência de que o futuro é construído com ações e decisões tomadas no presente", explica. Para tanto, a especialista aborda a temática entre adolescentes chamando a atenção para o uso da boca não só para as necessidades de manutenção da vida, como comer, mas também como instrumento de reivindicação de direitos, de justiça social, de denúncia das mais variadas formas de opressão e violência, e também de trocas afetivas e de comunicação. A abordagem é colocada em prática em oficinas realizadas pelo curso de especialização em Odontologia de Saúde Coletiva da EAP-ABO/RS.

Ter todos os dentes hígidos aos 12 anos de idade não é garantia de manutenção da saúde até a idade adulta. Portanto, defende-se que o cuidado em saúde bucal seja constante - "mas sem culpar o jovem pela eventual falta de cuidado", alerta Salete. "Faltam informação para desenvolver práticas saudáveis e acesso aos meios de prevenção e cuidado individuais, o que configura um quadro de vulnerabilidade social preocupante. Em qualquer prazo só teremos saúde bucal coletiva dividindo responsabilidades entre sujeitos, serviços e profissionais, agregando conhecimento durante o atendimento, nas atividades educativas nas escolas e na comunidade, para que se restabeleça a auto-estima dos adolescentes."

Os princípios de atuação do PSF afirmam que a estratégia de atendimento a que ele se propõe se encarrega de identificar e atender as especificidades de cada grupo, conforme idade, ambiente, história etc., garantindo o acesso e a inclusão da comunidade. Mas, para Salete, é preciso ampliar o efeito comprovado da estratégia. Neste sentido, os profissionais de saúde ganham, também, função de educadores, transformando o atendimento em ação para o desenvolvimento integral do ser humano. No trato com crianças e adolescentes, indivíduos ainda em formação física e moral, a mudança de comportamento ganha maior importância. "Não devemos cair no erro de sermos simplistas ao abordarmos adolescentes acreditando que são rebeldes, não têm interesse, não têm vontade. O que lhes falta é perspectiva de um futuro melhor, apoio e empoderamento na busca da sua saúde. Acredito que o jovem é o que fomos no passado, apenas com mais poesia, romantismo e brilho no olhar", defende a odontopediatra.



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