LIVRO
Perfil Atual e Tendências do Cirurgião-Dentista Brasileiro
GUIA
Controle de tabaco

GERENCIAMENTO
Resíduos de Serviços de Saúde
CADERNO
Atenção Básica

 


    

O FUTURO DA ODONTOLOGIA III - Pesquisa
Produzindo muito, mas para poucos

Pesquisa odontológica impulsiona o crescimento do conhecimento científico brasileiro, mas o vale entre excelência científica e relevância social ainda é grande. Solução pode estar na descentralização da produção e no investimento em pesquisas menos sofisticadas, mas de amplo impacto na saúde bucal da população


Prof. Flávio Fava de Moraes

Em 2007, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) anunciou a chegada do Brasil ao 15º lugar do ranking de países com maior número de artigos científicos publicados, à frente de outros de reconhecida tradição científica, como Suécia e Suíça. Segundo dados dos di­re­tó­rios do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tec­no­lógico (CNPq), a Odontologia tem relevante papel nesse crescimento da produção científica brasileira, sendo eixo temático de mais de 375 grupos de pesquisa, figurando entre as dez áreas com maior número de pesquisadores no Brasil . Mas, apesar de o avanço da produção científica odontológica nos últimos anos ser incontestável, os efeitos desse crescimento na saúde bucal da população ainda estão longe do ideal.

É o que pensa o diretor da Fundação Faculdade de Medicina (FFM), Flávio Fava de Moraes, graduado em Odontologia e doutor em Biologia Celular e Tecidual pela Universidade de São Paulo (USP), de onde é professor titular e ex-reitor (1993-1997).

Já em 1994, em entrevista à Revista ABO Nacional, Fava chamava a atenção para a necessidade de se "adequar a pesquisa odontológica brasileira às necessidades nacionais". Para o acadêmico, pouca coisa mudou nesse sentido desde então. "Ainda continuamos produzindo muito, mas para poucos. A pesquisa odontológica ainda tem uma separação negativa, muita pesquisa básica não tem aplicação clínica, e muita pesquisa clínica não tem fundamentação básica. Esse 'defeito' precisa ser corrigido, essa separação precisa ser diminuída, e o caminho que a pesquisa tem que ter é o da pesquisa integrada, em que os dois compartimentos façam projetos temáticos com fundamentação básica acompanhada por resultados clínicos. Isso dá, inclusive, mais consistência e mais visibilidade na literatura internacional", avalia o professor.

Fava considera que o espaço entre os dois segmentos pode ser maior ou menor dependendo da área, mas é sempre existente na saúde. Ele sugere que o notável crescimento do conhecimento científico seja alvo de estratégias que levem à criação de pesquisas necessárias à superação dos problemas sociais. "É paradoxal uma ciência de excelência coexistir com graves quadros epide­mio­lógicos", denuncia.

 

Conhecer as partes sem esquecer o todo

Outro paradoxo apontado por Fava que representaria um obstáculo ao aproveitamento pleno do crescente conhecimento científico odontológico pela sociedade é a "supersegmentação" da Odontologia em detrimento do conhecimento amplo da saúde. "A especialização é uma fase importante, indispensável, e não merece muita crítica, mas o especialista não pode abrir mão da visão generalista", alerta.

A falta dessa visão acabaria por contribuir com o amadorismo da pesquisa científica. "Muita pesquisa é, praticamente, um ato repetitivo de pesquisas que já foram realizadas em outros centros e que, portanto, já possuem o direito da originalidade. Isso não quer dizer que pesquisas não precisem ser confirmadas, porque a evolução da ciência é para dar luz ao desconhecido, e uma informação nunca deve ser acatada como certeza, sempre depende de consolidação através de confirmações posteriores. Essa confirmação, infelizmente, consolida resultados, mas não avança no desenvolvimento do conhecimento", lamenta.

Para Fava, muitas pesquisas odontológicas padecem de previsibilidade. "A qualidade de uma pesquisa começa com uma boa pergunta. Se você tem uma boa pergunta, pode até ter um mal resultado, por erros meto­dológicos, por exemplo, mas, ainda assim, é algo válido. A pesquisa depende de planejamento prévio, conhecimento adequado da literatura e segurança na meto­dologia, entre outras coisas. Essas etapas são fundamentais à qualidade da pesquisa. Considero que isso é uma etapa que, no Brasil, precisa de mais atenção. A pesquisa, a cada dia que passa, é mais cara, porque depende de equipamentos mais sofistica­dos, sensíveis, drogas cada vez mais puras, mais deta­lha­mento tecnológico. Portanto, aumenta a responsabilidade de não ser uma pesquisa óbvia, previsível", defende.

 

Ciência para todo o Brasil

Em mais de quatro décadas de vida acadêmica, Flávio Fava de Moraes orgulha-se de ter trabalhado ao lado de pesquisadores de várias regiões do País, e lamenta pelo que considera ser um dos maiores obstáculos do Brasil rumo ao aproveitamento pleno de seu potencial científico: a centralização da produção de conhecimento no Sudeste, especificamente no Estado de São Paulo. "Os centros que produzem pesquisa, que estão mais desenvolvidos, continuam vinculados às três universidades públicas paulistas. A USP detém 30% dessa produção, enquanto Unesp (Universidade Estadual Paulista) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) detêm 20% - pouco mais de 50% de toda a pesquisa científica produzida no País", afirma o diretor.

O paradoxo, segundo Fava, é reforçado pela existência de bons pesquisadores em todo o Brasil, muitos deles pós-graduados em programas dos chamados grandes centros de pesquisa. "São pessoas inteligentes, talentosas, que voltam para seus locais de origem e, muitas vezes, sentem-se frustradas por ter seu potencial hibernado." O acadêmico sugere como alternativa a este problema o que muitos pesquisadores chamam de "sistema de constelação" em pesquisa científica. "Os grandes centros atuariam como planetas e os menores, satélites, com projetos de pesquisa consorciados, nos quais quem está num lugar com mais carências não perde a relação umbilical com o centro mais de­sen­vol­vido, que, por sua vez, ganha por ter sua pesquisa mais avançada, com mais projetos. Isso contribui para a des­cen­tralização da pesquisa na medida em que os menores ficam mais maduros e autônomos", explica. Segundo ele, já há alguns exemplos com êxito nesse sentido, mas ainda longe do ideal. Para que a experiência tenha sucesso, ele considera que a iniciativa deva ser compartilhada. "O local de origem do pesquisador deve entender que, se permitiu que seu docente fosse para outra instituição se qualificar, tem que dar o mesmo apoio em sua volta. A instituição que forma também precisa abrir essa possibilidade."

O desafio é grande. Segundo a Capes, a pós-graduação no Brasil cresce na ordem de 7% ao ano. No último mês de março, o País contava com 2.437 programas de pós, 3.637 cursos e 148 mil estudantes. No entanto, a distribuição destes programas ainda é desigual: 52% dos cursos estão na região Sudeste, outros 20% no Sul, 17% no Nordeste, 7% no Centro-Oeste e apenas 4% no Norte.

Se analisadas em conjunto com os dados do Levantamento das Condições de Saúde Bucal da População Brasileira (SB-Brasil), realizado pelo Ministério da Saúde em 2003, com o apoio da ABO, as informações apontam para uma possível relação entre o desenvolvimento científico e as condições de saúde bucal locais. Segundo a pesquisa, as regiões Norte, Nordeste e Centro-oeste possuem índice CPO maiores do que o Sul e o Sudeste (3,13, 3,19, 3,16, 2,31 e 2,30, respectivamente). "É claro que uma série de outros fatores está relacionada às condições de saúde bucal de uma população, especialmente a existência de políticas públicas, mas o conhecimento científico precisa estar aliado à melhoria das condições sociais", defende Fava. Para ele, não é só a falta de pesquisa que dificulta essa relação, mas também o dire­cio­na­men­to dado aos trabalhos. "É preciso ter pesquisas avançadas, mas também necessárias. Por exemplo: em um pequeno município no interior de um Esta­do brasileiro ainda pobre, de onde não se sabe o índice de cárie, de má-oclusão e de outros problemas odontológicos, seria interessante fazer uma pesquisa com planejamento, métodos e procedimentos que não são inéditos, com resultados definidos através de fórmulas amplamente di­vul­gadas. Apontando-se estes dados, seria possível orientar políticas públicas para o município. Ou seja: sem grandes pretensões de descobertas científicas, faz-se uma pesquisa necessária para a população", propõe.



Voltar ao índice da Revista





 

Copyright © 2005 ABO - Associação Brasileira de Odontologia. Melhor se visualizado com resolução de 1024 X 768.
Todos os direitos reservados. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização.