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O FUTURO DA ODONTOLOGIA III - Pesquisa
O bom momento da pesquisa brasileira

A produção científica em Odontologia no País tem crescido nos últimos anos e atraído cada vez mais jovens pesquisadores. Agora é necessário continuar investindo para o crescimento não parar, alcançar maior reconhecimento internacional e seus benefícios chegarem à sociedade.


Prof. Jaime Aparecido Cury
A pesquisa brasileira em Odontologia passa por uma ótima fase, alcançando destaque entre as áreas da Saúde pelos avanços que obteve nos últimos cinco anos. A observação de diferentes dados permite chegar a esta conclusão e um deles, destacado por Jaime Aparecido Cury, professor titular de Bioquímica da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Universidade Estadual de Campinas (FOP/Unicamp), é o número de artigos brasileiros na área publicados na base do Institute for Scientific Information (ISI), que é o principal banco de informações internacional relacionadas a artigos científicos de todas as
áreas, publicados nas mais relevantes revistas científicas internacionais e que também funciona como um indicador de qualidade - entre 2001 e 2003, foram 898 publicações, sendo que em todo o século XX foram regis­tradas 854. "O Brasil é o quinto país do mundo em número de artigos publicados em revistas de impacto, sendo assim considerados de nível equivalente aos feitos por pesquisadores do mundo desenvolvido", diz Cury.

O atual bom momento da pesquisa odontológica é uma visão compartilhada por José Luiz Lage-Marques, professor livre docente de Endodontia da Faculdade de Odontologia da USP (FO/USP), coordenador da especialização nesta especialidade da Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico da O­don­­tologia (Fundecto) e, assim como Cury, importante nome da pesquisa odontológica brasileira. "O aumento da produção intelectual da Odontologia brasileira é observado pelo incremento da publicação e visibilidade internacional. Os números refletem a efervescência de um campo de trabalho em franco crescimento." O pesquisador da USP cita como outro exemplo do aumento da produção científica o Med­Line, maior acervo de revistas científicas sobre Saúde. Entre 1980 e 1985, a base de dados registrou apenas duas publicações brasileiras, número que foi subindo até chegar a 4.912, de 2006 a 2008.

 

No cenário mundial

Para Lage-Marques, o aumento quantitativo de publicações brasileiras foi acompanhado pela maior cooperação internacional para a realização de experimentos e crescente índice de citação. Jaime Cury, por sua vez, pondera que há uma aparente discrepância entre o Brasil ser o quinto em artigos publicados e apenas o 13º no mundo em citações, que indica o reconhecimento da pesquisa internacionalmente.

Mas ele explica essa diferença por dois fatos: "O primeiro é que o crescimento em qualidade e quantidade da produção cientifica da Odontologia brasileira é muito recente. Ele ocorreu a partir de 1998, com as mudanças de critérios na avaliação da produção científica dos pesquisadores daqui pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Assim, nossa ciência começou a ser percebida no exterior só a partir deste século". E continua: "Em segundo lugar, é muito difícil os pesquisadores do exterior passarem a citar mais as publicações brasileiras, isso demanda certo tempo, para nos firmarmos como produtores de uma ciência séria e que merece ser citada".

Para caminhar na direção deste maior reconhecimento internacional, Lage-Marques lembra ainda que o pesquisador brasileiro em Odontologia tem um ponto positivo a seu favor: sua reconhecida habilidade para a prática clínica como um grande diferencial em relação aos países mais desenvolvidos.

 

Reforço jovem


Prof. José Luiz Lage-Marques

A pesquisa odontológica também tem ganhado fôlego na juventude, e isso está acontecendo não só no Brasil, mas também em muitos outros países. A maior presença de jovens pesquisadores, iniciantes e aspirantes, é marcante, e eles, juntamente com seus orientadores, têm participado efetivamente da produção e divulgação científica.

Para José Luiz Lage-Marques, esse maior interesse dos jovens pela pesquisa mostra que "nem só de consultório vive o profissional da Odontologia". Assim, para acompanhar essa realidade, cabe também à universidade oferecer, desde a graduação, subsídios para

ajudar o aluno a definir seu perfil, seja para atuar na pesquisa, na clínica ou outro caminho. "Esse é o diferencial que a instituição formadora deve exaustivamente buscar. Inúmeras empresas necessitam de profissionais da Odontologia para pesquisa básica, clínica, geren­ciamento, administração e qualificação do produto. As instituições que conseguirem definir um perfil do aluno na graduação pela iniciação científica se tornarão referência no fornecimento de profissionais para o mercado de trabalho", completa o pesquisador da USP.

Mas ele também esclarece que a iniciação científica é uma alternativa simultânea à graduação, que permite ao aluno participar de atividades vocacionais com o docente ou a disciplina que mais lhe motivam; desenvolver seu sentido crítico e analítico; aperfeiçoar sua maneira de se expressar por escrito e oralmente; ampliar a leitura mais atualizada, entre outros. "E tudo isto sem a obrigação de tornar-se, no futuro, um pesquisador. Se ocorrer, ótimo, caso contrário será um profissional mais apto a decidir por ter um melhor preparo intelectual."

No crescimento da pesquisa odontológica brasileira é preciso também valorizar a atuação da Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica (SBPqO), que é responsável pela administração e visibilidade da produção científica nacional. Segundo Lage-Mar­ques, que também é assessor para assuntos internacionais da entidade, as reuniões da sociedade são o momento ideal para a exposição e discussão de grande parte do trabalho anual realizado nos cursos de pós-graduação, para a discussão e aprimoramento dos resultados antes da sua definitiva publicação.

 

Seguindo em frente

Para o futuro, alguns desafios se impõem à pesquisa brasileira para que ela continue a crescer com qualidade e cumpra seu papel na sociedade. "Nenhuma pesquisa, e sua conseqüente publicação, tem razão de ser se a sociedade não puder usufruir dela. Isto pode ser alcançado através da melhoria da qualidade de vida, oferecendo tratamento para as doenças e suas causas e, principalmente, prevenção, e é válido para desde a qualidade de implantes dentários até a de cremes dentais fluoretados", argumenta Jaime Cury, da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Unicamp.

Lage-Marques ainda destaca a necessidade de aperfeiçoar a formação em Odontologia para adequá-la às inovações. "O ensino deve ter como objetivo a formação de um profissional ge­neralista, com sólidos conhecimentos técnico-científicos, humanísticos e éticos, e orientado para a promoção de saúde e a prevenção de doenças bucais prevalentes. Sem esquecer a capacidade de aprender a pesquisar com as inovações tecnológicas e com vistas a promover a pesquisa odontológica de ação coletiva", afirma ele.

O investimento na área da pesquisa também é lembrado por Cury como essencial para que a produção científica continue aumentando, pois, se os jovens pesquisadores não forem absorvidos pelo mercado de trabalho, pode haver uma estagnação. Cumprir estes desafios é importante para que a pesquisa em Odontologia cresça em número de trabalhos publicados, em reconhecimento e em qualidade, "gerando cada vez mais conhecimento, sem se limitar a testes de produtos", conforme completa o pesquisador da Uni­camp.



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