ORTODONTIA
Em busca da harmonia
Antonela Tescarollo e Diego Freire
| A Ortodontia – e para onde ela caminha - pode ser considerada uma síntese da Odontologia brasileira atual, por apresentar marcante avanço científico e tecnológico, sempre acompanhando as tendências mundiais, e pelo reconhecimento mundial. Além disso, assim como a saúde bucal do brasileiro, a Ortodontia começa a ser considerada e reivindicada dentro da saúde pública, para que seus benefícios se democratizem. Também estão cada vez mais associados à Ortodontia conceitos como interdisciplinaridade e promoção de saúde, integrando-a a outras especialidades e como parte importante na saúde geral do organismo, além de ser vista pelo viés da prevenção e da atenção básica. Nas páginas a seguir especialistas de peso – Kurt Faltin, Leopoldino Capelozza Filho, Emanuel Dias de Oliveira e Silva, José Augusto Mendes Miguel, Maria Helena Miotto, Ronaldo da Veiga Jardim, Ricardo Lombardi e Stenyo Tavares – falam sobre todas essas faces e interfaces da Ortodontia. |

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E o assunto também é apresentado por profissionais de outras áreas da saúde: o ortopedista francês Bernard Bricot, a fisioterapeuta Débora Bevilaqua Grossi, a neurologista Fabíola Dach, a fonoaudióloga Silvia Hitos e o otorrinolaringologista Luc Louis Maurice Weckx.
Pela Ortodontia interdisciplinar

Prof. Kurt Faltin Jr. |
É cada vez maior a conscientização da importância da interdisciplinaridade na Ortodontia, que, assim, deve ser estudada e praticada de forma integrada a outras especialidades da Odontologia, ampliando e melhorando suas aplicações e resultados
Muito além de dentes esteticamente alinhados. A Ortodontia na verdade busca o equilíbrio entre ossos, músculos e dentes, que será refletido em saúde e harmoniosa beleza. “O sistema neuromuscular da face é responsável pela mastigação, fonação, respiração, por isso é preciso que ele esteja todo equilibrado, sempre”, destaca o ortodontista Kurt Faltin, doutor em Ortopedia Facial pela Universidade de Bonn (Alemanha) e coordenador dos cursos de especialização e mestrado na especialidade da Universidade Paulista (Unip).
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Prof. Leopoldino
Capelozza Filho |
E é Faltin mesmo que faz a relação entre o bom funcionamento deste conjunto e a beleza e harmonia da face, alcançadas pela correta disposição e encaixe das partes no todo, obedecendo a proporções. “Nosso rosto é uma coleção enorme de proporções divinas”, diz o especialista fazendo alusão às proporções perfeitas usadas por Leonardo Da Vinci em todas as suas obras e definidas por cálculos matemáticos, mais especificamente por equação criada pelo matemático italiano Leonardo Fibonacci.
Assim, a Ortodontia vem ampliando seus horizontes e abandonando as características sob as quais foi construída no Brasil: uma especialidade fechada em seu universo, avançada tecnicamente, mas voltada às classes mais ricas, com foco na estética – não que isso não seja importante, mas não somente -, e sem considerar a má-oclusão no contexto da saúde coletiva. Um dos principais conceitos que se coloca para a Ortodontia atual é a interdisciplinaridade, que chama a atenção para a importância do especialista estudá-la e aplicá-la com um olhar mais aberto, vendo-a não isoladamente, mas relacionada a outras áreas da própria Odontologia e com outras áreas da saúde. |
A necessidade de considerar as demais especialidades começa, para Kurt Faltin, em um princípio bem básico: “O paciente precisa estar com a saúde bucal 100% em ordem antes de passar pelo tratamento ortodôntico”. Desta forma, a saúde periodontal deve receber atenção especial, assim como realizar o tratamento endodôntico anteriormente, caso seja necessário, entre outros aspectos. A Implantodontia e a Prótese também são íntimas da Ortodontia nas reabilitações que envolvem movimentos de dentes, além da complementação estética após o fim do tratamento, com clareamento, facetas, entre outras técnicas.
Há também o caminho inverso, no qual os problemas ortodônticos geram outros problemas bucais. “Dentes apinhados e más-oclusões pioram com o tempo, complicam a higienização, diminuem o osso alveolar interdentário, comprometem o periodonto, pertubam a mastigação e a função articular.
Considerando que tudo isso já normalmente piora com a idade, fica clara a importância das correções ortodônticas e da preservação dos resultados para toda a saúde bucal e geral”, explica Leopoldino Capelozza Filho, mestre em Ortodontia e doutor em Reabilitação Oral pela Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP), instituição em que também é professor. |

| Antes, durante e depois de 6 anos de tratamento, com pausas entre as etapas. Foram usados diversos tipos de aparelhos: placa dupla Sander e o ortopédico Bionator Base de Balters, com arco base inferior de Ricketts |
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O importante a destacar na interdisciplinaridade é que ela não se dá simplesmente no encaminhamento do paciente a diferentes especialistas, mas no contato e interação entre eles e no conhecimento que um tem da área do colega, mesmo que não o aplique. “É necessário que, desde a elaboração do plano de tratamento, todos os profissionais participem e que as metas terapêuticas sejam realistas e atendam, dentro do possível, o interesse e as necessidades dos profissionais e do paciente”, coloca Capelozza. O especialista ainda lembra que é necessário todo o processo estar escrito e documentado, “assim, os especialistas interagem entre si e não usando o paciente como interface”.
Outra especialidade de que o ortodontista deve se aproximar em determinados casos é a Odontologia para Pacientes Especiais. “Esta interação é obrigatória, pois as necessidades e possibilidades quase sempre não mantêm correlação nestes pacientes. É muito importante ter recomendações dos especialistas que cuidam deles para poder definir metas” completa o professor da FOB/USP.
Um caso especial

Prof. Emanuel de
Oliveira e Silva |
Na abordagem interdisciplinar da Ortodontia uma situação se destaca: a cirurgia ortognática, que exige profundo conhecimento e trabalho conjunto de ortodontistas e cirurgiões bucomaxilofaciais, entre outros profissionais da saúde, para que seja realizada com sucesso. Segundo Emanuel Dias de Oliveira e Silva, especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial e coordenador dos Programas de Pós-graduação e Residência na especialidade da Universidade de Pernambuco (UPE), hoje estes dois especialistas trabalham bem integrados neste ponto. Ele completa que as sociedades das duas especialidades têm ajudado muito nisso, apresentando e debatendo o assunto em seus congressos. “Isso possibilita maior aceitação da necessidade de desenvolver mais conhecimento em conjunto.”
Em um tratamento com cirurgia ortognática, ortodontista e cirurgião bucomaxilofacial devem conhecer muito bem a natureza das |
deformidades faciais e saber qual é a verdadeira necessidade do paciente e, para isso, é imprescindível o amplo conhecimento de toda a função estomatognática, além da definição de quais exames devem complementar o diagnóstico amplo e sistêmico. “Os dois profissionais devem interagir como uma equipe, entendendo que o paciente tem expectativas que devem ser trabalhadas, expondo naturalmente as possibilidades reais para as correções e estabelecendo confiança”, diz Silva.
Além do conhecimento para o correto diagnóstico e planejamento que devem ser igualmente compartilhados pelos dois, há, obviamente, as funções específicas de cada especialista. Para o especialista em CTBMF, em linhas gerais, cabe ao ortodontista “eleger o melhor aparelho para promover basicamente o alinhamento dos dentes, nivelamento das arcadas e angulação pré-cirúrgica dos dentes anteriores”.
Já o cirurgião, além da execução do procedimento, deve fazer a “perfeita análise facial, cirurgia nos modelos, definição da técnica cirúrgica, previsão de resultados por programas pré-definidos, assim como orientação sobre anestesia, manipulação do paciente no pré-operatório e durante o ato, condutas de UTI e enfermaria, medicação, alta hospitalar, entre outros”. Os dois profissionais ainda são responsáveis pelo acompanhamento do paciente, as observações em relação à sua oclusão e reabilitação maxilofacial completa. No tratamento com cirurgia ortognática, os dois especialistas da Odontologia precisam trabalhar também em parceria com outros profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e psicólogos, pela complexidade de todo o processo e por este estar mais ligado à atividade hospitalar.
Mesmo com algumas funções definidas para cada especialista, Silva destaca: “O paciente é um ser integral e complexo. É necessário que os profissionais de saúde tenham um conhecimento amplo desta integralidade, para que possam se dedicar a uma parte deste todo. Tanto que o ortodontista, para realizar seus procedimentos, deve estabelecer protocolos de tratamento com o cirurgião. A discussão do caso deve ser ampla e bem desenvolvida. Em saúde não há espaço para a execução do despreparo”.
Duas ou uma só especialidade?
A especialidade da Odontologia que parece estar mais inter-relacionada com a Ortodontia é a Ortopedia Funcional dos Maxilares. E de fato estão tão ligadas que alguns especialistas consideram as duas uma só especialidade.
É o caso do ortodontista e doutor em Ortopedia Facial pela Universidade de Bonn (Alemanha) Kurt Faltin. “A separação entre Ortodontia e Ortopedia só existe aqui no Brasil. E isso só se deu junto ao Conselho Federal de Odontologia e às entidades, pois as universidades continuam ensinando Ortodontia com a Ortopedia incluída nela”, diz ele.
Para Faltin, um dos aspectos mais importantes que se coloca à Ortodontia atualmente é a supervisão e orientação do desenvolvimento facial e da erupção dos dentes no paciente que ainda está em desenvolvimento. “Chego a uma oclusão perfeita pelo crescimento harmônico da face, da maxila e da mandíbula, pela implantação correta dos dentes nas bases ósseas. E posso estimular e conseguir isso com as terapêuticas ortopédicas, mecânicas e funcionais”, explica o especialista.
Desta forma, a ciência da especialidade englobaria hoje tanto os elementos ortodônticos quanto os ortopédicos. “A Ortodontia atual deu uma volta tão grande que precisamos ser primeiro ortopedistas. Mesmo porque, na natureza do desenvolvimento facial, primeiro cresce o osso para depois surgirem os dentes”, conclui Faltin. Mas lamenta que poucos especialistas estejam cientes disto e continuem aplicando apenas as técnicas fixas. “Os que não fazem Ortopedia têm uma séria restrição no resultado final, quando o paciente precisa desta abordagem. A Ortopedia sem a Ortodontia também é limitada, dificilmente se chegará a resultado pleno.”
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RÉSUME - Orthodontics
In search of harmony
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The Orthodontics – and wherever it goes – may be considered the synthesis of the current Brazilian Dentistry for presenting a significant scientific and technological advancement, always following the worldwide trend, and seeking for the worldwide recognition. Besides, like the Brazilians' oral health, the Orthodontics start to be considered and revendicated within the public health sector so its benefits become democratized. Concepts such as interdisciplinarity and promotion of health are increasingly more associated to Orthodontics, integrating it to other specialties and as an important part of general health of the body, besides being seen through the bias of prevention and basic care. In the following pages well known experts – Drs. Kurt Faltin, Leopoldino Capelozza Filho, Emanuel Dias de Oliveira e Silva, José Augusto Mendes Miguel, Maria Helena Miotto, Ronaldo da Veiga Jardim, Ricardo Lombardi and Stenyo Wanderley Tavares – talk about all these Orthodontics' faces and interfaces. The matter is also presented by professionals of other health areas: the French Dr. Bernard Bricot, orthopedist, Débora Bevilaqua Grossi, physiotherapist, Dr. Fabíola Dach, neurologist, Silvia Hitos, speech therapist, and Dr. Luc Louis Maurice Weckx, otorhinolaryngologist. |
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