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ORTODONTIA
Profissionais da saúde em sintonia

Não é só na Odontologia que a Ortodontia tem ampla atuação, mas também em outras áreas da saúde, sendo essencial no diagnóstico e tratamento de diferentes problemas e doenças. Mais uma vez a interdisciplinaridade é crucial

A Ortodontia alcança relevância e atuação ainda maiores quando é vista num contexto interdisciplinar mais amplo, integrada a outras áreas da saúde, além das especialidades odontológicas. Neste contexto, há um trabalho integrado entre orto­dontistas, otorrinolaringo­logis­tas, fono­audiólogas, ortope­distas, fisioterapeutas, neurologistas, enfermeiros etc., para tratamento de dores de cabeça, coluna e ouvido, alterações na fala, respiração e postura, entre outros – problemas que já têm relações comprovadas e conhecidas com certas condições bucais.

Para Leopoldino Capelozza Filho, mestre em Ortodontia e doutor em Reabilitação Oral pela Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP), este amplo espectro de atuação da especialidade foi comprovada por sua própria experiência como ortodontista. “Comecei minha prática clínica no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais de Bauru, da USP, o Centrinho. Essa fase da minha vida profissional foi primordial para entender o que significa a

especialidade e suas amplas possibilidades”, conta. Na reabilitação das fissuras faciais, principalmente as de lábio e palato, o ortodontista, ao conhecer o crescimento craniofacial e as relações de causas ambientais e genéticas, é elemento chave na equipe interdisciplinar, contribuindo para diagnóstico e definição de condutas terapêuticas e cirúrgicas.

Nesta e em outras interações entre as diferentes áreas da saúde é essencial que haja inter­disci­plina­ridade desde o início do processo, para que as relações entre sintomas e causas sejam esta­bele­cidas da forma correta, assim como as medidas tomadas. “A participação conjunta de todos esses profissionais deve transcender os recursos terapêu­ticos, envolvendo também o diagnóstico. Afinal, metas terapêuticas, que podem incluir recursos permitidos pelos especialistas, dependem do diagnóstico da doença ou problema e reconhecimento dos fatores etioló­gicos”, destaca Capelozza, que também é professor da FOB/USP.


Bernard Bricot, ortopedista francês: importância do CD na equipe postural




Neurologista
Fabíola Dach

O especialista ainda chama a atenção para o cuidado em não exagerar na importância das influências das condições bucais nos outros problemas, questão também resolvida pelo trabalho integrado dos profissionais. “Sem dúvida, as relações dentárias podem ser fator etiológico destes problemas, mas enfatizar demais suas possíveis consequências nestes casos pode envolver o paciente em tratamentos com prognóstico falso. Nessa perspectiva, o caráter interdisci­plinar desde o diagnóstico deve ser considerado.”

Estes possíveis enganos são eliminados pelo conhecimento científico sobre as interações entre boca, oclusão especificamente, e a saúde do organismo em geral, pela experiência e contato com profissionais que podem apresentar visões diferentes. Mas, para Capelozza, a Ortodontia brasileira já está no caminho certo: “Acho que o ortodontista tem uma noção mais clara da dependência de sua prática clínica em relação a outras especialidades com que ele busca objetivos em comum. Nem sempre isso é claro na interface com a área médica. No entanto, com profissionais diferenciados é possível estabelecer bases para garantir ao paciente um tratamento efetivo”.

E se for comprovada a relação com a saúde bucal, o caráter multiprofissional deve permanecer durante o tratamento e acompanhamento. No que cabe à Or­todontia, ela pode contribuir com procedimentos clínicos efetivos, por meio de recursos mecânicos de ação dentoalveolar ou esque­lético, com máxima eficácia.

“É preciso considerar como tese que as alterações de forma devem preceder alterações de função”, completa o professor da FOB/USP.


Um só corpo

Maxilares e dentes estão interligados à cadeia muscular anterior do corpo, fazendo com que eles tenham uma interação permanente com a postura. “Esta relação funciona nos dois sentidos: os desequilíbrios posturais podem descompensar os maxilares, e os desequilíbrios dos maxilares podem descompensar a postura. Daí a necessidade de uma abordagem global do corpo”, explica o médico ortopedista francês Bernard Bricot, que estará na capital paulista em junho para ministrar o curso Introdução à Posturologia, área em que é especialista. Assim, para Bricot não há dúvida de que o cirurgião-dentista, em específico o especialista em Ortodontia e Ortopedia Funcional dos Maxilares, deve fazer parte da equipe que trata de problemas posturais, assim como conhecer esta área. E ele lembra que, além dos problemas oclusais, também interferem na postura as patologias focais e os micro­gal­vanismos dentais.


Odontotologia, Neurologia e Ortopedia: interfaces entre DTM e postura

A fisioterapeuta Débora Be­vilaqua Grossi, professora do curso de Fisioterapia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP) e responsável pelo Ambulatório de Cefaleia e DTM do Hospital das Clínicas da mesma instituição, também concorda que a Odontologia apresenta grande interface com a postura do indivíduo e com outros músculos do corpo. “A Fisioterapia auxilia na avaliação e tratamento de pacientes com dis­função tem­poromandibular que, além de dores articulares e musculares na cabeça e pescoço, limitações e/ou incoordenações na função man­dibular, apresentam ce­faleias e, na maioria das vezes, têm mau posicionamento da cabeça e má postura de forma geral, sinais e sintomas que muitas vezes extra­polam a área de domínio do cirurgião-dentista.”

Débora completa que a etiologia multifatorial da DTM - relação entre os dentes, condição dos músculos craniocervicais e da postura corporal - faz com que seja necessária uma abordagem inter­dis­ciplinar para diagnosticá-la e tratá-la. “Quando ajustamos o posicio­namento da

cabeça, por exemplo, alongando a cadeia ins­piratória e corrigindo uma cabeça protrusa, estamos também mu­dando a relação dos dentes na oclu­são. Da mesma forma, se o cirurgião-dentista altera o posi­cionamento dos dentes, muda a relação entre maxila e mandíbula e isto repercute no posiciona­mento da cabeça” explica a fisioterapeuta. Segundo ela, em alguns pacientes estas mudanças são absorvidas pelo sistema esto­matognático, mas outros podem precisar de um profissional pra acompanhar a evolução do caso, minimizar o desconforto e a dor e favorecer o re­sultado final.

Para Débora, o contato entre fisioterapeutas, ortodontistas e ortopedistas ainda é pequeno, mas, por sua experiência profissional, quando o profissional conhece os conceitos de plasticidade muscular e postura corporal, reconhece o importante papel da Fisioterapia. “O ideal seria que o paciente com DTM pudesse ser encaminhado ao fisioterapeuta para que o diagnóstico clínico e cinético funcional fosse estabelecido em conjunto e o tratamento programado com mais eficiência”, finaliza.

 

Mais interações clínicas

A médica Fabíola Dach, neurologista do Hospital das Clínicas da FMRP/USP e membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia, também aponta a DTM como o ponto de inter­secção mais bem estabelecido entre Neurologia e Odontologia, basicamente, por conta do compar­tilha­mento da inervação sensitiva que ocorre através do nervo trigêmio. “Em nosso serviço é rotina o exame da articulação temporo­mandibular em todo paciente com cefaleia ou dor facial. Acreditando que a dor possa ter uma origem odontológica, o médico deve encaminhá-lo a um especialista para verificação. O mesmo deve ocorrer quando o paciente procura primeiramente o cirurgião-dentista”, conta ela. E completa: “Cada profissional deve atuar com o propósito de controle ou da cura da condição apresentada pelo paciente, evitando o uso de medicamentos e/ou procedimentos desnecessários”.

Além da cefaleia, a Neurologia se aproxima da Odontologia por outra condição, a Neuralgia do Tri­gêmeo (NT), caracterizada por dor lanci­nante unilateral, comumente desen­cadeada por estímulos triviais (escovar os dentes, lavar o rosto, bar­bear-se) e que acomete a segunda e/ou a terceira divisão do trigêmio em 95% dos casos. “De um modo geral, os pacientes com NT que passaram por investigação médica normal devem ser avaliados considerando os problemas odontológicos, como DTM e abscessos dentários, que possam estar causando ou desencadeando essa condição”, explica Fabíola. E a neurologista ainda faz um alerta: “Ressalto que, se o cirurgião-dentista for o primeiro a avaliar um paciente com quadro neurálgico e excluir a causa odontológica para a dor, ele deve encaminhar o paciente a um neurologista. É com grande pesar que vemos iatrogenia em pacientes com NT que acabam por ter vários dentes extraídos sem necessidade”.

Outra área que tem relação com a Ortodontia já conhecida é a Fonoaudiologia. Segundo a fo­no­audióloga Silvia Hitos, especialista em Motricidade Orofacial pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia, as duas áreas da saúde são cúmplices em muitos tratamentos, pois ambas trabalham com o binômio “forma-função”. “As alterações esqueléticas e/ou dentárias impõem muitas limitações ao trabalho fonoaudiológico, enquanto que prejuízos na postura, tônus e mobilidade dos órgãos fonoarticulatórios e alterações nas funções estoma­tognáticas podem dificultar a evolução do tratamento ortodôntico e ser o grande vilão nas recidivas”, explica ela.

Ainda assim, o ortodontista Leopoldino Capelozza Filho acredita que a relação com a Fono­au­diologia “pode ser melhorada com o conhecimento que a literatura dis­ponibiliza para compreensão do que, quando e quanto essa área pode ser útil no manejo das disfunções musculares peri e intrabucais”. Silvia concorda que ainda há muito desconhecimento, apesar dos avanços. “Ouço relatos de cirurgiões-dentistas que, ao verificar a necessidade de conduta fonoaudiológica, têm dificuldade para embasar o encaminhamento e também de que há muita resistência por parte do paciente ou de seus familiares em seguir a solicitação, o que pode inviabilizar a ação conjunta e o bom andamento do tratamento”, conta a fonoaudióloga.

Silvia faz mais uma observação: “Em 20 anos de clínica, a maioria dos pacientes que me procurou por alteração na motricidade orofacial e que já se encontrava em final de tratamento ortodôntico, surpreendentemente, não havia sido encaminhada para avaliação da condição respiratória”. Para ela, entre os fonoaudiólogos já há mais conhecimento sobre a necessidade da parceria com ortodontistas, odonto­pe­diatras, otorrinola­ringologista, entre outros profissionais, pois têm como foco principal a reabilitação dos pacientes.

 

Efeito dominó


Prof. Luc Louis
Maurice Weckx

Respirar pelo nariz é um direito de todos, pois o homem foi feito para isso e porque neste percurso o ar é filtrado, umidificado e aquecido antes de chegar ao pulmão. Assim, quando a criança ou o adulto é privado deste direito, tornando-se um respirador bucal ou oral, uma série de consequências é desencadeada e prejudicando muito a saúde e o bem-estar do indivíduo.

Segundo o otorrinolaringologista Luc Louis Maurice Weckx, professor titular do Departamento de Otor­ri­nolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o ideal é tratar precocemente a causa da obstrução das vias aéreas superiores, que pode por adenoide, rinite alérgica, amidalite, ou outro. “Mas, normalmente, o paciente chega até nós já com as consequências do problema. Aí, então, é necessário o tratamento multidisciplinar”, diz Weckx.

Como resultado da respiração bucal, a má-oclusão atinge cerca de 80% das pessoas com o problema, caracterizando-se pelo estreitamento maxilar, palato com forma ogival, mordida cruzada posterior e mordida aberta anterior. O otorrinolaringologista enumera outros prejuízos: “Lábio inferior maior, aumento no diâmetro vertical da face, deficiência na deglutição, o que faz com que o paciente acabe engolindo ar, formando uma barriguinha e projetando a pelve e a cabeça para a frente. A adenoide e a amídala grandes também podem trazer problemas para o coração”. E continua: “A condição também pode levar a um sono agitado, causando problemas no aprendizado, pela sonolência e cansaço. Às vezes também ocorre apneia obstrutiva do sono”.

Diante deste quadro, o ortodontista entra para corrigir o padrão ósseo e dentário, mas também é preciso tratar da cárie dentária e da gengivite, comuns entre crianças deste grupo. O CD muitas vezes contribui com o diagnóstico do problema, encaminhando o paciente para o otorrinolaringologista tratar primeiro as causas da respiração errada. A Fonoaudiologia age na postura de lábios e língua, da força e mobilidade dos músculos da face e das funções estomatognáticas, e a Fisioterapia, para reeducar toda a postura.

Na Unifesp, Weckx coordena uma experiência pioneira, o Centro do Respirador Bucal, que reúne todas essas especialidades, e também a do alergista, para oferecer atendimento completo à criança ou ao adulto com o problema, evitando deslocamentos e assegurando que o tratamento todo será finalizado. “Hoje existem cerca de oito centros pelo Brasil, mas a meta é que todo hospital público ou universitário tenha um. Tratar o respirador bucal é muito importante e, infelizmente, há um gargalo para atendê-lo na saúde pública”, diz o otorrinolaringologista.


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