
Prof. Ronaldo da Veiga Jardim |
Segundo o Conselho Federal de Odontologia (CFO), o Brasil tem mais de 10 mil ortodontistas e ortopedistas em atuação. A média de crescimento do número de profissionais da área é de 33% ao ano, uma das maiores entre as especialidades odontológicas. Para o presidente da Associação Brasileira de Ortodontia e Ortopedia Facial (Abor), Ronaldo da Veiga Jardim, professor da ECC-UniABO da ABO/GO, tal crescimento é “exorbitante” e “decorrente da facilidade com que se abrem cursos de especialização no Brasil atualmente”. Segundo ele, somente o Estado de São Paulo forma mais especialistas do que todos os EUA, cuja população, formada por 299 milhões de habitantes, é servida por 9.350 ortodontistas. “E isso se agrava considerando que, devido à má distribuição desses profissionais pelo território brasileiro e à formação de grande parte deles, nossa população não é tão bem atendida quanto a norte-americana”, lamenta Jardim. |
Para tentar solucionar esses problemas, a Abor deu início, em 1998, à implantação do Board Brasileiro de Ortodontia e Ortopedia Facial (BBO – www.bbo. org.br), um apêndice autônomo da entidade, com diretoria e estatutos próprios. Trata-se do primeiro board de saúde criado no Brasil. Através de avaliações teóricas e práticas, o BBO emite certificado que comprova que o clínico tem capacidade de tratar bem seus casos. O processo é minucioso, e foi necessário recorrer ao Board Americano de Ortodontia, com mais de 75 anos de existência, para que fossem certificados os membros eleitos da diretoria, tornando-os habilitados a examinar seus pares brasileiros. Somente em abril de 2004 foi possível realizar o primeiro exame de certificação no Brasil.
As avaliações do BBO são feitas anualmente, nos moldes do Board Americano, com provas teóricas e exames de casos clínicos. Segundo a Abor, já foram aplicados cinco exames, diplomando 63 profissionais. “Pode-se dizer que é uma espécie de ‘selo de qualidade' da Ortodontia. O objetivo principal é estimular a consolidação de padrões de excelência clínica no País, proporcionando aos usuários meios mais seguros de avaliar a qualidade dos serviços recebidos”, explica Jardim. Não se trata de exame de certificação, como o que tramitava no Senado ou o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O Board é opcional – ou seja, os candidatos que se enquadram nas normas éticas de conduta profissional têm a oportunidade de se autoavaliarem por meio de uma rígida e detalhada revisão de conduta clínica.
De certa forma, o diploma é “emprestado” ao ortodontista, que deverá se atualizar constantemente e, ao final de 10 anos, submeter-se a novo exame. Além disso, sob pena de perder a certificação, o profissional deve seguir rigoroso código de conduta ética, que condena “atitude mercantilista no ensino” e “antiética”, entre outros comportamentos.
Formação vigiada
Mas o presidente da Abor afirma que a avaliação sistemática dos profissionais já em atuação, apesar de saudável, não é suficiente para garantir a melhoria da Ortodontia nacional. Para ele, é preciso “pulso por parte do governo no controle do número de faculdades e de vagas oferecidas”. A causa também é defendida pela ABO Nacional, abrangendo todas as especialidades odontológicas. Em carta aberta divulgada no último mês de março e em reuniões com autoridades do poder público em Brasília – entre elas, o ministro da Educação, Fernando Haddad, e o presidente da Câmara, Michel Temer –, a entidade defendeu o fechamento de faculdades precárias e a diminuição da oferta de vagas na graduação (veja quadro com dados levantados pela ABO Nacional junto ao IBGE e ao CFO na pág. 18). “Precisamos ampliar as políticas públicas que contemplam a saúde bucal e não formar tantos profissionais; precisamos de mais incentivos para desconcentrar profissionais, levando-os para o interior do País, para atender a população carente de cuidados relacionados à saúde bucal; precisamos de concurso público e salários justos. Sabemos do esforço do atual governo, mas precisamos de mais – e, neste mais, temos que formar menos profissionais”, argumenta o presidente nacional da entidade, Norberto Francisco Lubiana.
Jardim vê com a mesma preocupação a maneira como a pós-graduação na área vem sendo conduzida. “O mercado ficou bastante atraente para alguns profissionais mal intencionados. Há excesso de profissionais sem emprego e sem clientes, o que se tornou um grande alvo para os mercantilistas do ensino. O MEC não se responsabiliza pelos cursos que ele chancela, então estes são ministrados de qualquer maneira, com carga horária insuficiente, conteúdo programático inadequado e frequência incompatível com as necessidades de um aprendizado ideal. É muito importante que o recém-formado procure cursos de pós-graduação de qualidade. Que observem a carga horária, a frequência com que as aulas são ministradas, os professores e outros aspectos que definem um bom curso de pós-graduação”, aconselha.
Segundo o CFO, existem no Brasil 75 cursos de especialização em Ortodontia credenciados, ministrados por entidades de classe, e 234 reconhecidos, ministrados em instituições de ensino superior. O número sobe para quase 500 se considerados os mestrados e doutorados acadêmicos e profissionalizantes e os cursos não credenciados ou reconhecidos pelo CFO, já que o MEC tem autonomia para credenciar instituições de ensino sem o devido controle. Nos EUA há 62 cursos; na França, cuja população é de 60 milhões de habitantes, há 16; no Reino Unido, que tem 60 milhões de habitantes, há 16 especializações em Ortodontia.
Jardim denuncia que “no Brasil, muitos cursos são ministrados em clínicas particulares com chancelas de faculdades itinerantes, em módulos mensais, o que proporciona aos seus coordenadores ministrar quatro turmas ao mesmo tempo”. Para ele, tal procedimento “não visa a qualidade da formação profissional, mas sim o lucro. É impossível ensinar Ortodontia desta forma. A evolução da especialidade é muito grande, o que significa que os cursos deveriam aumentar a carga horária, e não diminuir, como o que vem acontecendo. Como poderia um aluno instalar, por exemplo, um disjuntor maxilar em um paciente e vê-lo somente depois de um mês, sendo que este é um procedimento de avaliação, no máximo, semanal? O aluno não aprende e o paciente não tem seu problema resolvido”.
A Federação Mundial de Ortodontistas (WFO, na sigla em inglês) apenas reconhece cursos com carga horária de, no mínimo, 3.700 horas. Nos EUA, a carga horária dos cursos de especialização é de 3.500 a 4.800 horas.
Mas com tamanha saturação no mercado e no ensino, a Ortodontia ainda é uma boa opção de carreira para o cirurgião-dentista? Jardim acredita que sim, contanto que a escolha pela especialidade seja feita com critérios. “O cirurgião-dentista que pensa em seguir pela Ortodontia deve estar seguro de sua opção, pois a especialidade só traz satisfação quando exercida com seriedade, ética e ciência.” Para tanto, indica “cursos com carga horária clara, devidamente inscritos no CFO, com frequência mensal e módulos preparatórios (typodont, cefalometria e outros)”, e recomenda desconfiança com especializações “coordenadas por profissionais que atuem em vários cursos simultaneamente, oferecidas em locais que ministram mais de um curso, em clínicas particulares, com características mercantilistas, baixa carga horária clínica, que preconizam apenas uma técnica e que utilizam material de apenas um fabricante”. Jardim cita como bom exemplo a especialização em Ortodontia da ECC-UniABO da ABO/GO, em atividade há 15 anos (veja na pág. 19 outros cursos de Ortodontia em ECCs das UniABO, em vários pontos do Brasil). Na ABO/GO, o curso tem duração de três anos, regime semanal com três períodos de clínica e carga horária de 2.516 horas, oferecendo, no máximo, 10 vagas por turma.
Ortodontia na UniABO
As 83 ECCs-UniABO oferecem mais de mil cursos por ano, em seus 1430 consultórios, por onde cerca de 3 mil professores (doutores, livres-docentes, mestres e especialistas) compartilham seu conhecimento capacitando os cirurgiões-dentistas brasileiros. Até o fechamento desta edição, as Seções que informaram possuir cursos de especialização em Ortodontia são essas:
| ABO/BA |
ABO/PA |
| ABO/DF |
ABO/PE |
| ABO/ES |
ABO/RS |
| ABO/GO |
ABO/SE |
| ABO/MS |
ABO/TO |
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Mais informações na Rede ABO
(Seções e Regionais): www.abo.org.br |
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