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SAÚDE BUCAL
A hora de parar

Teoricamente é possível admitir um momento em que a fluo­retação da água seja dispensável, mas os especialistas encontram dificuldade para determinar quando a medida não será mais necessária no País. É a mesma dificuldade encontrada para determinar o momento em que o "País do Futuro" vai enfim despontar do seu casulo de subdesenvolvimento.

Na última década de 90, J. Riley, M. Lennon, R. P. Ellwood, C. M. Jones e H. Worthington (Reino Unido), entre outros, apontaram que a medida beneficia proporcionalmente mais os grupos sociais em desvantagem. Em um cenário de profundas desigualdades sociais, a fluoretação surge como medida necessária para corrigir ou amenizar as distorções da pirâmide social."Até onde consigo especular sobre isso não vejo, em curto ou médio prazo, um cenário onde o Brasil possa abrir mão da fluore­tação", confirma Paulo Capel Narvai. Tampouco o flúor é o antídoto absoluto

contra a doença. Jaime Cury, professor titular de Bioquímica da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP-Unicamp) lembra que isoladamente o flúor não evita ou impede a doença cárie, porém eficientemente reduz a velocidade da sua manifestação. "Quando combinado com o controle dos fatores etiológicos da doença, como o acúmulo de bio­filme dental e consumo de açúcar, o efeito máximo é alcançado", reforça.


Jaime Cury

Em 1996, Márcia Helena Bal­dani, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Paulo Capel Narvai, da FSP-USP, e José Leo­poldo Ferreira Antunes, da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FO-USP) conduziram uma pesquisa que sustenta a opinião de Cury. Eles revisaram dados epide­miológicos referentes ao CPO-D 12 anos de 357 dos então 371 municípios do Estado do Paraná. A compilação revelou altos níveis de cárie mesmo em municípios com 100% da água fluoretada e baixos níveis da doença em localidades que não fluo­retavam suas águas.

"Fluoretação não tem esse poder de imunizar contra a doença", ratifica Narvai. Trata-se, na opinião do docente da FSP-USP, de uma ação preventiva com­prova­damente efetiva contra a doença, mas, em determinados contextos, alguns fatores de risco predominam de tal modo, e com tal intensidade, que a fluoretação tem seu poder preventivo bastante diminuído embora, sem ela, tais cenários seriam provavelmente muito piores. No estudo sobre os dados paranaenses, os índices de CPO-D menos favoráveis apareciam associados a níveis precários de renda familiar e grau de instrução dos pais, por exemplo



O flúor na água dos brasileiros

Em 1953, a cidade de Baixo Guandu (ES) tornava-se a pioneira no Brasil a adotar a fluoretação da água tratada, para contribuir na diminuição da prevalência de cárie dentária entre a população, principalmente entre crianças.

Hoje, 2.466 municípios brasileiros, de um total de 5.507, adicionam flúor à água tratada, ou seja, 55,74% deles oferecem esse serviço. A partir desses dados, o governo estima que cerca de 100 milhões de brasileiros tenham acesso à água fluoretada, correspondendo a 53% da população aproximadamente. A região com maior número de municípios com água fluoretada é a Sudeste (70,05%), seguida da Sul (69,96%) e da Centro-oeste (41,46%). As regiões Norte e Nordeste são as que possuem menor porcentagem de municípios, com 7,82% e 16,55%, respectivamente.

Além disso, há uma parcela da população, estimada pelo Ministério da Saúde em cerca de 30 a 40 milhões de pessoas, que também contam com abastecimento de água por rede de distribuição, mas sem ter o flúor adicionado.

 
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