S A Ú D E I N T E G R A L
Sob o domínio da aparência
Os transtornos alimentares são complexas e sérias alterações que requerem ação conjunta de diversas áreas da saúde e amplo debate na sociedade
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Os transtornos alimentares são alterações psiquiátricas muito sérias e persistentes, que não se curam naturalmente. Segundo a nutricionista colaboradora do Ambulatório de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da USP (Ambulim) Fernanda Scagliusi, a doença "invade" e domina a vida do paciente, fazendo com que seus pensamentos se concentrem quase somente em comida e corpo.
Para Marco Antonio De Tommaso, psicoterapeuta pela USP, psicólogo das agências de modelos Elite e L'Equipe e consultor da Unilever - Dove na Campanha pela Real Beleza, "o desencadeante atual dos trans- tornos alimentares é a busca indiscriminada de um 'padrão' de beleza totalmente arbitrário e ditatorial". Ele defende que a área da saúde não tem força, sozinha, para efetuar a prevenção de- vidamente, "dada à luta desigual com a propagação desses padrões via mídia, moda, publicidade". Ele alerta ser fundamental a realização de um fórum de debate acerca desses "padrões" que reúna os diversos segmentos da cultura ocidental - "saúde, educação, moda, |
comunicação, governo e outros" - para a discussão do problema. Nesse contexto, o alimento torna-se o fator principal de um complexo sistema compensatório, sendo também objeto de culpa e transformando-se rapidamente em um elemento nocivo à saúde. A nutricionista complementa: "A pessoa doente também passa a achar que seu valor, como indiví- duo, depende do corpo. Se ela se achar gorda, não significa apenas que seu corpo é feio, mas também que é uma pessoa fraca, suja, fra- cassada, descontrolada".
Os transtornos alimentares atingem principalmente as mulheres. Estatísticas internacio- nais apontam que de 85% a 95% dos doentes com transtornos alimentares são mulheres. Apesar dessa informação, é difícil saber quem são as pessoas por trás desses transtornos. Segundo Tommaso, é imprecisa qualquer tentativa de se formular um perfil psicológico delas, "no sentido de uma perso- nalidade pré-mórbida". Ele explica que, habitualmente, algumas características de comportamento podem ser evidenciadas. "A pa- ciente com anorexia é boa aluna, boa atleta, boa filha. Quase sempre perfeccionista e introvertida. Porém, não podemos generalizar", alerta. Para ele, "o que se pode fa- zer é descrever os critérios de diagnósticos".

Nutricionista Fernanda Scagliusi |
Negar-se a manter o peso corporal a nível mínimo para a idade e estatura pode ser um dos principais indícios de transtorno alimentar. "Há ainda o medo mórbido de engordar mesmo estando muito magra, alteração na forma de perceber o próprio corpo (auto-imagem) e influência na auto-avaliação", conta o psicoterapeuta. A supervalorização do que a magreza pode proporcionar tam- bém pode ser um dado importante no diagnóstico, o que os profis- sionais costumam identificar como grave alteração da imagem corpo- ral. Tommaso completa que o paciente também costuma apre- sentar irritabilidade, oscilação brusca de humor, retraimento social, depressão, tristeza, dificuldade de concentração, perfeccionismo, autodepreciação, ente outros distúrbios.
Comportamentos como formas de purgação (uso de laxantes e |
diuréticos, indução a vômitos, atividade física excessiva) sem ter compulsões, grande insatisfação corporal e estar sempre de dieta, apesar de sérios e complexos, não constituem o quadro dos transtornos mais conhecidos. "Esses estão dentro da categoria dos transtornos alimentares não especificados, que abrangem formas mais brandas dos tradicionais e casos mais atípicos", completa a nutricionista Fernanda.

Psicoterapeuta Marco Antonio de Tommaso |
Terapia multidisciplinar
Os transtornos alimentares são quadros dramáticos resultantes de uma complexa inter-relação entre aspectos biológicos, psicológicos e sócio-culturais. Sua origem multifatorial requer uma interação multidisciplinar no tratamento. Segundo Fernanda, o tratamento deve ser composto, no mínimo, por atendimentos psiquiátrico, psicológico e nutricional. "Algumas medicações ajudam no controle das compulsões, porém poucas são efetivas para a anorexia nervosa. De qualquer forma, a medicação isoladamente não é suficiente", diz ela. Além do psicólogo, psiquiatra e nutricionista, Fernanda lembra que outros profissionais também importantes para o tratamento são o cirurgião-dentista, professor de educação física, arte-terapeuta, terapeuta ocupacional, enfermeiro e fisioterapeuta. O CD tem papel pontual na identificação de casos precoces pela observação das complicações odontológicas decorrentes, "Nesse caso, a família deverá ser informada desse indício e encaminhada para o profissional competente", orienta Tommaso. |
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