menu

    

O FUTURO DA ODONTOLOGIA

ARTIGO
Aspectos científicos da Promoção da Saúde Bucal - com os olhos no futuro
Yvonne de Paiva Buischi


Yvonne de Paiva Buischi

Doutora em Bioquímica pelo Instituto de Química da Universidade de São Paulo. Pesquisadora associada do Centro de Odontologia Preventiva, Karlstad (Suécia). Consultora da Organização Mundial da Saúde (OMS). Diretora do Per Axelsson Oral Health Promotion Center – São Paulo. Assessora Internacional da ABO. Responsável pelo Programa de Promoção de Saúde Bucal da Anthony's Free Medical Care Clinic de Nova York (EUA).

Considera-se que para uma pessoa ser saudável a ausência de doença não é suficiente, nem tam­pou­­co necessária. Saúde não é a ausência de qualquer desvio do ideal, nem de nenhum sintoma. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), saúde é o que nos capacita a ter uma vida social e economicamente produtiva. Na sociedade glo­balizada em que vivemos, estética e aparência passaram a ser mais importantes do que a saúde. Porém, nada e mais bonito e mais sexy do que uma boca saudável.

Ainda hoje, às portas do novo milênio, vivenciamos a perpetuação da crendice popular de que é natural ter cárie e doenças de gengiva, e de que perder dentes faz parte do processo de envelhecimento. Embora as doenças bucais mais comuns (cárie e doenças periodontais) não se apresentem como ameaças imediatas à vida, elas constituem importantes problemas de saúde pública, não somente devido à sua alta prevalência mas, também, em função de seu impacto individual e comunitário, em termos de dor, desconforto e limitações sociais e funcionais, afetando a qualidade de vida. Além disso, a boca reflete o estado de saúde geral. Muitas doenças sis­têmicas, incluindo diabetes e Aids, têm manifestações bucais. Estas manifestações podem ser o primeiro sinal clínico da doença, permitindo que o médico/cirurgião-dentista identifique precocemente doenças potencialmente fatais quando tardiamente diagnosticadas. A estreita relação

entre doenças bucais e saúde geral pode ser exemplificada pelos resultados de pesquisas recentes, mostrando que portadores de doenças periodontais têm maior chance de desenvolver doenças cardiovasculares, pulmonares, renais, diabetes, e de dar à luz crianças prematuras e de baixo peso. Mesmo apresentando sinais expressivos de melhora em determinadas faixas etárias e em certas regiões do País, a saúde bucal do brasileiro é extremamente precária. Enquanto uma tendência à redução da pre­valência de cárie em crianças na faixa escolar do primeiro grau e em adolescentes pode ser observada, o quadro epide­mio­lógico atual mostra índices muito severos de ataque pela cárie den­tária em crianças de 0 a 6 anos e em adultos. Padrões elevados de ocorrência de doenças perio­dontais e de câncer bucal são ainda observados, assim como número surpreendente de adultos de meia-idade e idosos desdentados. Some-se a esses dados o fato de que apenas, no máximo, 33% da população têm acesso às clínicas odontológicas particulares, sendo este atendimento inviá­vel para pelo menos 130 milhões de brasileiros.

Embora tanto a Odontologia mundial como a brasileira sejam eminentemente curativas, isto é, espera-se o paciente apresentar sintomas avançados da doença, no caso da cárie, o “buraco”, para de­pois tratar, a “prevenção” tem longa história na profissão odon­tológica. Conhecimentos científicos atuais mostram que apesar de não conseguirmos prevenir totalmente as doenças, é possível reduzir o risco de contraí-las. Isto só é possível através da prática da Promoção da Saúde. Promoção da Saúde é uma ação global obje­tivando a melhoria da qualidade de vida das pessoas, sendo seu componente bucal apenas uma pequena parte do todo.

Promover Saúde Bucal é mais do que contar para o paciente que cárie pode ser prevenida através da utilização correta de produtos contendo flúor, da limpeza adequada dos dentes e da racionalização do consumo de açúcar. Promover Saúde Bucal é qualquer esforço planejado para construir políticas públicas de saúde saudáveis, criar ambientes que apóiem o esforço individual e comunitário de ser saudável, fortalecer a ação comunitária, desenvolver habilidades pessoais e/ou reorientar serviços de saúde voltados para a Promoção da Saúde.

Como profissionais de Saúde temos a obrigação ética e social de praticar nossa profissão “com os olhos no futuro”. De acordo com a OMS, a população do Brasil irá aumentar cinco vezes entre 1950 e 2025, sendo que durante este período a população de idosos deverá aumentar 16 vezes. Em 2025, teremos mais de 32 milhões de brasileiros com 60 anos. A velocidade de envelhecimento nos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, é espantosa. Sob a perspectiva do ciclo da vida, o declínio da Saúde Bucal tem um grande impacto na ingestão de alimentos, contribuindo para um declínio mais rápido da atividade funcional durante a velhice. O fato de que 36% dos brasileiros considerados idosos são edêntulos é inaceitável. O edentulismo traz prejuízos consideráveis à qualidade de vida, pois a falta de dentes leva à desnutrição, além de provocar efeitos estéticos e psicológicos negativos, como a baixa estima, comprometendo os relacionamentos pessoais e de trabalho.

Agora é o momento de nos questionarmos: vale a pena acrescentar mais anos à vida sem proporcionarmos uma melhor qualidade de vida? Neste contexto, o papel do cirurgião-dentista é fundamental, pois qualidade de vida está estreitamente ligada à manutenção de uma boca saudável.

A oportunidade para promover a Saúde no Brasil é imensa. Em relação à Saúde Bucal, a Promoção da Saúde é um meio potencial de combate ao desconforto, dor e sofrimento associados às doenças bucais, tornando-se estratégia importante na redução do impacto que estas doenças têm na vida da população brasileira. Agora é o momento de nos prepararmos para o futuro, aplicando os conhecimen­tos científicos disponíveis há tantas décadas na área de Promoção da Saúde Bucal. Em assim fa­zendo, estaremos garantindo qualidade de vida para os anos que os brasileiros já estão vivendo e irão viver a mais. Uma grande conquista, sem dúvida nenhuma, para nós cirurgiões-dentistas e para os profissionais de Saúde em geral, mas, principalmente, uma linda e merecida conquista para a sociedade brasileira, que afinal merece, sim, ter maior longevidade, mas que esses anos a mais sejam vividos com dignidade e muita alegria.



Voltar ao índice da Revista
Untitled Document



 
 
 




 

Copyright © 2005 ABO - Associação Brasileira de Odontologia. Melhor se visualizado com resolução de 1024 X 768.
Todos os direitos reservados. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização.