O FUTURO DA ODONTOLOGIA IV
Caminhos para a Odontologia ocupar seu espaço
A Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofaciais é a especialidade da Odontologia com maior penetração no ambiente hospitalar, atuando em um meio interdisciplinar e multiprofissional. As dificuldades enfrentadas pelos especialistas na área mostram os desafios que a Odontologia ainda tem pela frente para ocupar maior espaço nos sistemas de saúde

Edela Puricelli, chefe do Serviço de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial do Complexo Hospitalar da Santa Casa de Porto Alegre, e equipe atuando em centro cirúrgico
Diversas especialidades odontológicas integradas na equipe dos Serviços de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial e de Odontologia Infantil da Santa Casa de Porto Alegre: CTBMF, Ortodontia e Ortopedia Facial, Endodontia, Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais, Endodontia, Dentística, Disfunção da ATM e Dor Orofacial, Odontopediatria, Prótese Bucomaxilofacial, Prótese Dentária, Periodontia, Estomatologia
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Interdisciplinariedade, equipes multiprofissionais, saúde bucal como importante para a promoção da saúde geral do indivíduo e a Odontologia integrada às demais áreas da saúde. Idéias e conceitos como estes são cada vez mais difundidos entre profissionais e pacientes, e para eles também apontam as tendências atuais e futuras da prática e do conhecimento em saúde. "A Odontologia é uma das ciências da saúde que mais tem se desenvolvido dentro da aplicabilidade multi e interdisciplinar do conhecimento. Seu convívio com as demais especialidades da Medicina, Nutrição, Fonoaudiologia e Engenharia, entre outras, alavancou a visão dentária para a visão sistêmica", avalia a cirurgiã-dentista Edela Puricelli, coordenadora do mestrado e doutorado em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofaciais (CTBMF) da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutora pela Universidade de Düsseldorf (Alemanha).
Neste contexto, a Cirurgia, praticada hoje no País por 3.067 CDs especialistas, destaca-se, pois é uma especialidade da Odontologia essencialmente exercida pelo especialista com o apoio e acompanhamento de equipe multiprofissional e interagindo com outras áreas. Além disso, pela demanda que atende e maior parte dos procedimentos de médio e grande portes que realiza, a prática da Cirurgia acontece principalmente nos hospitais. Assim, a especialidade insere, obrigatoriamente, o CD neste ambiente, trabalhando lado a lado com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, entre outros profissionais da saúde. |
A exemplo do que acontece com a CTBMF, os próprios especialistas na área defendem a efetiva inclusão das demais especialidades da Odontologia no ambiente hospitalar, para consagrar a saúde bucal como importante na assistência integral e no bem-estar dos pacientes internados. "Na visão multidisciplinar, todas as especialidades da Odontologia encontram um foco de atuação diferenciado dentro dos hospitais" afirma Edela Puricelli, que também é chefe do Serviço de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial e do Serviço de Odontologia Infantil do Complexo Hospitalar da Santa Casa de Porto Alegre (RS) e presidente da Associação Latino-americana de Cirurgia Bucomaxilofacial (Alacibu).

Edela Puricelli, da UFRGS |
Ela completa explicando que, nos hospitais, a Ortodontia é a grande parceira da CTBMF, pois participa de quase todos os tratamentos que possam alterar oclusão e as estruturas esqueléticas, ealém dos profissionais da Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais, que já estão bastante integrados nas equipes de Cardiologia; as de Oncologia e Hematologia, no atendimento de pacientes imunossuprimidos, e nas UTIs, entre outros. "Atuam fortemente ainda a Periodontia, Estomatologia, Endodontia, Dentística, Implantodontia, Prótese Dentária, Odontopediatria, Odontogeriatria, Imaginologia Dentomaxilofacial e a Patologia Bucal", diz Edela. |
Alguns avanços

Ortodontista Mário Morganti, que atua em equipe hospital multidisciplinar, analisa imagens de tomografia computadorizada |
A inclusão e a aceitação do cirurgião-dentista, de diferentes especialidades, nos hospitais ainda estão em processo e muitas barreiras precisam ser derrubadas, inclusive limitações dos sistemas hospitalares de informática que não prevêem o número do CRO como registro do profissional, ou dos processos técnico-administrativos. Mas em 2008 alguns importantes passos foram dados. Em fevereiro, o deputado federal Neilton Mulim propôs o Projeto de Lei 2776/2008, que torna obrigatória a presença do CD nas equipes multiprofissionais das UTIs de hospitais públicos e privados de todo o País. A proposta foi inspirada e embasada na reportagem A Odontologia Chega à UTI publicada na Revista ABO Nacional. A partir disso, os presidentes da ABO, Norberto Lubiana, e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), Álvaro Réa-Neto, firmaram parceria e criaram o Departamento de Odontologia Intensiva, comum às duas entidades e coordenado pela cirurgiã-dentista Teresa Márcia Nascimento de Moraes. |
Para Edela, que desde a década de 1970 trabalha para conscientizar de gestores a operadoras de saúde sobre a importância da Odontologia nos hospitais, tendo participado de diversas iniciativas pioneiras nesta luta, "a inclusão de Departamentos de Odontologia em entidades da Medicina promoverá efetivamente a interprofissionalidade, gerando oportunidades de intercâmbios para todos".
Espaço de direito da CTBMF

Cirurgião Robson Rezende, da ABO/ES |
Mesmo a Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofaciais sendo a especialidade da Odontologia mais bem estabelecida dentro dos hospitais, o especialista ainda enfrenta algumas dificuldades para atuar nesta área. Para Robson Rezende, professor de CTBMF da ABO Espírito Santo, especialista e mestre na área e cirurgião bucomaxilofacial do Hospital Infantil de Vitória, as principais dificuldades que os CDs encontram neste ambiente são "o difícil relacionamento profissional com os médicos, a falta de compromisso dos planos de saúde em atendê-los e o pequeno investimento do próprio governo frente a esses profissionais". Para ele, o governo valoriza pouco estes profissionais ao oferecer, por exemplo, salários mais baixos que de médicos com a mesma carga horária, ou abrir menos vagas que a maioria das especialidades médicas. |
Apesar destes obstáculos, as atribuições específicas do cirurgião bucomaxilofacial, independentes das dos médicos de especialidades afins, assim como a necessidade de sua atuação acontecer em ambiente hospitalar, estão bem definidas e embasadas. "É clara a atuação do especialista em CTBMF nos hospitais, já que um grande número de cirurgias desenvolvidas nessa especialidade possui um grau de complexidade que exige sua realização neste ambiente", explica Rezende.
Segundo a Resolução 22/2001, do Conselho Federal de Odontologia (CFO), a especialidade da Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofaciais "tem como objetivo o diagnóstico e o tratamento cirúrgico e coadjuvante das doenças, traumatismos, lesões e anomalias congênitas e adquiridas do aparelho mastigatório e anexos, e estruturas craniofaciais associadas". "O cirurgião bucomaxilofacial é absolutamente responsável por estas condutas e por tudo que possa decorrer dos seus atos. Não há qualquer lei, ato ou resolução que possa suprimir e ou transferir esta responsabilidade", diz o conselheiro Emanuel Dias de Oliveira e Silva, especialista em CTBMF e coordenador dos Programas de Pós-graduação e Residência na especialidade da Universidade de Pernambuco (UPE). Além disso, os fundamentos e conceitos da ciência odontológica são essenciais para o exercício da especialidade e a formação em nível de residência (mínimo de 6 mil horas, com duração de três anos), exigência quase que natural do profissional que vai atuar na área, oferece ao CD bases teórica e prática suficientes e adequadas para atuar em hospitais.
Silva explica que, embora as atribuições e limitações de cada profissional envolvido estejam claras, os conflitos de interesses, de ordem profissional, institucional e até de mercado, são provocados pela proximidade entre as áreas em que atuam os diferentes especialistas. O conselheiro ainda conta que as resoluções do CFO (nº. 003/99) e do Conselho Federal de Medicina (CFM - nº. 1536/98) que discorrem sobre lesões de interesse comum entre o cirurgião bucomaxilofacial e o médico, foi mal interpretada, gerando conflitos entre as profissões. "Esse desentendimento foi resolvido recentemente, através da Câmara Técnica CFO-CFM, e a resolução definida em conjunto será reeditada." A Câmara Técnica, na qual Silva representa o CFO, foi criada para melhorar o entendimento e as relações entre as duas classes. Dela também fazem parte o Colégio Brasileiro de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial e a Sociedade Brasileira de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial (Sobracibu).
Edela Puricelli também lembra que ainda é muito forte nas instituições e na sociedade a cultura de que cirurgia e hospital estão relacionados somente a médicos, prejudicando a Odontologia. "A presença do cirurgião-dentista nos hospitais ainda é incipiente, necessitando de muito trabalho para a sua aceitação e inserção no corpo clínico ou nos processos administrativos e assistenciais." A especialista cita como exemplo disso o fato da Odontologia não ser "estampada" nos espaços das instituições hospitalares e a própria classe aceita a substituição de termos como Serviços de Odontologia por Serviços de Medicina Bucal. "A visibilidade que a Odontologia precisa acaba soterrada, ao final de tudo, por uma designação de Medicina", ressalta Edela. |
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