Essas transformações estão sendo ocasionadas pela melhora nas condições de vida, o crescimento e avanço da ciência médica em diagnóstico, novos tratamentos e fármacos, além da queda das taxas de fecundidade. Essa conjuntura e seus desdobramentos tornam mais evidente a urgência cada vez maior de políticas públicas na área e de governos e demais setores da sociedade estarem prontos para atender às necessidades dos idosos, grupo que, além de crescer e da maior longevidade, busca e tem direito à qualidade de vida e consomem mais produtos e serviços.
Para o setor saúde os desafios são bastante grandes, já que o processo cronológico do envelhecimento predispõe ao comprometimento da saúde e ao surgimento de enfermidades crônico-degenerativas, que, se não forem detectadas precocemente, antes mesmo da terceira idade, evoluem para limitações físicas e/ou mentais. Neste contexto, a Odontologia e o cirurgião-dentista têm um importante papel na avaliação do paciente como um todo - prevenção, diagnóstico e tratamento -, ou seja, promovendo saúde, o que fica mais bem evidenciado pelos conceitos e conhecimentos científicos e clínicos da Odontogeriatria.
A especialidade foi desmembrada da Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais e, segundo resolução no Conselho Federal de Odontologia (CFO), de 2001, “se concentra no estudo dos fenômenos decorrentes do envelhecimento que também têm repercussão na boca e suas estruturas associadas, bem como a promoção da saúde, do diagnóstico, da prevenção e do tratamento de enfermidades bucais e do sistema estomatognático do idoso”.

Saúde geral do idoso é fundamental para diagnóstico dentário correto |
Atenção às peculiaridades
Assim, a prática odontológica dentro deste conceito deve considerar enfermidades crônico-degenerativas como as cardiopatias, hipertensão arterial, diabetes, artrite, artrose, osteoporose, entre outras. Para o cirurgião-dentista Dalton José Sousa Costa, doutor em Periodontia, com ênfase em envelhecimento, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e professor do curso de Odontogeriatria da ABO Espírito Santo, “o tratamento dos pacientes idosos com estas doenças deve ser realizado após avaliação caso a caso, levando em consideração os riscos e benefícios existentes”.
É preciso também lembrar da ação dos medicamentos tomados para minimizar ou estabilizar estas doenças, pois provocam efeitos colaterais diversos na cavidade bucal, como lesões nos tecidos moles, hipossalivação e xerostomia, prejudicando muito a qualidade de vida do idoso. |
“A somatória das enfermidades e dos fármacos já justifica plenamente a necessidade da Odontogeriatria, pois eles modificam o organismo, seja em nível sistêmico ou bucal”, explica o cirurgião-dentista José Carlos Oleiniski, professor e coordenador do curso de Especialização em Odontogeriatria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), professor desta especialidade na ABO Santa Catarina e doutor em Odontologia, com área de concentração em Odontogeriatria, pela Universidade Complutense de Madri (Espanha).
Outra especificidade da terceira idade que se deve levar em conta são as modificações sociais e psicológicas por que muitos passam, como viuvez, aposentadoria, solidão e depressão. “O atendimento odontológico a este grupo deve ser humanizado e personalizado, com paciência, carinho e atenção especial, além de conhecimento multidisciplinar gerontológico”, completa Costa. E Oleiniski finaliza: “A Odontogeriatria é um novo campo de conhecimento em que o estado de saúde geral do idoso - as alterações psicológicas, fisiológicas e patológicas decorrentes do processo de envelhecimento - é fundamental para fazer o diagnóstico odontológico correto”. |

Expectativa demográfica x
idade x
gênero para 2010

CD Dalton Costa, da UniABO/ES
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A boca não está sozinha
Segundo Oleiniski, a Odontogeriatria também ressalta conceitos incorporados mais recentemente na Odontologia, mas que ainda precisam ser mais reforçados entre os profissionais. Os principais deles são as relações da saúde bucal com a saúde geral, e vice-versa, e a Odontologia como parte importante de um atendimento mais completo e efetivo.

CD José Carlos Oleiniski,
da UniABO/SC |
Para o especialista , que muitas vezes começa suas aulas e palestras com a pergunta “Você já viu uma boca andando sozinha?” para chamar atenção para a necessidade desta integração, os objetivos da Odontogeriatria só podem ser cumpridos dentro de uma abordagem inter e multidisciplinar.
“A interatividade entre diversas áreas profissionais afins, Odontologia, Medicina, Nutrição, Psicologia, Fisioterapia, Terapia Ocupacional, entre outras, é de fundamental importância para o sucesso da avaliação, do diagnóstico e do tratamento do idoso. A Odontologia carece de profissionais bem capacitados nesta especialidade e que possam integrar-se a esta abordagem para contribuir com a saúde geral e melhor qualidade de vida deste coletivo.” E completa: |
“Durante muitos anos os cursos de graduação não incluíam em seus currículos a boca na saúde sistêmica. O foco era praticamente nos procedimentos odontológicos relativos aos dentes e às suas estruturas de suporte. Ainda hoje, esta ciência está fortemente focada em procedimentos tecnicistas nas diversas especialidades, mas gradativamente está mudando”.
Dalton Costa concorda e lembra que, apesar das evidências científicas já confirmarem a importância da saúde bucal ser integrada à saúde geral e o cirurgião-dentista já estar inserido em muitas equipes multiprofissionais, esta não é a realidade brasileira, principalmente no setor público. Para ele, assim como para Oleiniski, esta defasagem também está muito ligada à formação do profissional. “Precisamos formar cirurgiões-dentistas generalistas, com conhecimento multidisciplinar, gerontológico e dos paradigmas do envolvimento sistêmico, deixando para o especialista em Odontogeriatria os casos mais complexos, e ainda preocupados com as questões sociais”, diz Costa.
| Para a Medicina, pelo menos em tese, a importância da boca na saúde geral, em especial a do idoso, já está bem clara. Segundo o médico Clineu Almada, geriatra do Hospital Israelita Albert Einstein, os especialistas desta área são treinados a ficar atentos às alterações bucais e a trabalhar em equipe com outros profissionais da saúde, incluindo cirurgiões-dentistas. Mas ele também apresenta uma ressalva: “Entretanto, a maior parte dos idosos do nosso País não é atendida por geriatras, que são poucos, por volta de 700 em todo o Brasil. Assim, a divulgação dessa importância é fundamental para que se consiga sucesso”.
O professor da ABO Espírito Santo ainda ressalta mais um aspecto do papel da saúde bucal para todo o organismo e melhor qualidade de vida: “O conhecimento dos princípios geriátricos sinalizados por trabalhos científicos recentes mostram que a preservação funcional do sistema mastigatório por toda a vida, com uma mastigação realmente efetiva, leva a uma maior absorção dos nutrientes essenciais, maior expectativa de vida, menos doenças, maior satisfação e prazer de sorrir e mastigar. Assim, um novo paradigma é apontado para a Odontologia: maior preservação e manutenção e menor atividade restauradora”.
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1490: Homem Vitruviano
(em desenho de
Leonardo da Vinci)
já mostrava o
ser humano de modo
integral e harmônico |
Medidas simples, diagnóstico correto
A Odontogeriatria também valoriza o embasamento biológico na avaliação do paciente, para que seja feito um diagnóstico correto e os procedimentos odontológicos executados de forma adequada e sem riscos clínicos para o paciente. Com este objetivo, o odontogeriatra José Carlos Oleiniski aponta que é essencial o cirurgião-dentista ter um melhor conhecimento básico e multidisciplinar das áreas médica e afins, principalmente das alterações fisiológicas e patológicas decorrentes do processo de envelhecimento.
Mas o especialista reforça que os cirurgiões-dentistas não devem se apavorar com esta nova visão, cheia de novas informações, pois o entendimento da Odontogeriatria é simples. “Esta especialidade, aparentemente complexa, possui vias de entendimento e soluções facilmente acessíveis no seu conhecimento e execução.” O imprescindível é começar por uma anamnese criteriosa, que considere os fatores socioeconômicos e psicológicos, as enfermidades crônico-degenerativas, os medicamentos tomados e as relações destes com a saúde bucal, além de exame físico bem executado e, quando necessário, exames complementares.
Dentro deste entendimento mais simples da Odontogeriatria, Dalton Costa destaca que as técnicas odontológicas utilizadas para tratar estes pacientes não mudam, o que diferencia é a indicação, as adaptações e as limitações deles, sempre levando em consideração o risco a que está exposto com a doença e o benefício que pode ser proporcionado com o tratamento. “Desta forma, estaremos atuando como verdadeiros promotores de saúde”, conclui Oleiniski.
O exemplo da diabetes
Para ilustrar a importância dos processos e conceitos propostos pela Odontogeriatria para o diagnóstico correto e tratamento seguro, o doutor em Odontologia, com ênfase em Odontogeriatria, e professor da ABO Santa Catarina José Carlos Oleiniski apresenta o exemplo de atendimento de um paciente com diabetes mellitus descompensada.
“Frequentemente este paciente apresenta periodontite severa. O desconhecimento da diabetes, sobre seu diagnóstico em si ou sobre sua repercussão bucal, fará com que o cirurgião-dentista opte por fazer uma raspagem ou cirurgia. Independente do tratamento dado, ambos os procedimentos estarão equivocados neste momento, pois primeiro o médico deverá compensar a doença, para depois o CD poder atuar adequadamente e sem riscos.”
“Na diabetes descompensada – continua -, o paciente, quando questionado na anamnese, pode relatar as três polis: poliúria (urina em abundância), polidipsia (sede) e, às vezes, polifagia (fome). Outras complicações podem ocorrer com repercussão na cavidade bucal, direta ou indiretamente, e em todo o organismo: macroangiopatia, microangiopatia periférica, dificuldade de cicatrização, metabolismo ósseo alterado e neuropatia periférica, entre outras.” E explica:
- Macroangiopatia: fará com que esse paciente consuma fármacos, podendo originar também a hipossalivação;
- Microangiopatia periférica: como o próprio nome indica, os microvasos periféricos, também existentes no ligamento periodontal, ficarão comprometidos pela má-formação dos fibroblastos, o que causará problemas periodontais;
- Dificuldade de cicatrização: devida às alterações imunológicas e na formação dos fibroblastos ;
- Metabolismo ósseo alterado: compromete a osseointegração em implantes dentários;
- Neuropatia periférica: os nervos ficam alterados, principalmente os periféricos, podendo causar dor e/ou ardência bucal.”
Não considerando a presença desta enfermidade, procedimentos como implantes, exodontias, raspagens, cirurgia periodontal e outros não terão resultados apropriados, aumentando seriamente o risco de infecção, que contribui para que o paciente torne-se ainda mais descompensado. Para atendimento de urgências, deve-se recorrer a procedimentos específicos e direcionados. Oleininski detalha que as manifestações bucais da diabetes descompensada podem ser:
- Hipossalivação: é a efetiva diminuição da quantidade de saliva. Ela se dá especialmente pela poliúria e fármacos, sendo estes últimos os principais causadores. Sabe-se que 99% da saliva é composta por água e com a poliúria o paciente pode ficar desidratado, portanto com hipossalivação;
- Xerostomia: é a sensação de boca seca. O principal fator da xerostomia é a desidratação. Esta manifestação e a hipossalivação são dois efeitos secundários e não doenças, aparecendo frequentemente em conjunto;
- Ardência bucal: é dada usualmente pela neuropatia periférica. Chega a atingir 30% dos casos descompensados;
- Doença periodontal severa: é dada por todas as pontuações feitas acima;
- Dificuldade de cicatrização: mecanismo já explicado acima, igualmente;
- Disgeusia (sabor alterado dos alimentos): poderá ter diversas causas, de uma maneira isolada ou por uma somatória delas. Entre elas estão a neuropatia diabética, hipossalivação, candidíase, saburra lingual, pelos medicamentos etc.
O que devemos saber sobre diabetes?, destaca o especialista e enfatiza: “Muito pouco, basta perguntar se o paciente tem a enfermidade e incluirmos na nossa anamnese as três polis, mas devemos ter um olhar aguçado para as possíveis manifestações desta doença tão prevalente. Caso exista resposta positiva, encaminharemos o paciente ao médico para avaliação e diagnóstico. Nós, CDs, só podemos tratá-los após recebermos um documento desse profissional nos informando que dado paciente está compensado. Considerando a importância destes dados, paciente e profissional se beneficiam ”. |
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Acesso fisicamente facilitado
Além dos conhecimentos científicos e técnicos mais relevantes no atendimento odontológico de idosos, os serviços público e privado também devem considerar fatores na infraestrutura, para oferecer um serviço diferenciado e mais completo que atenda às necessidades dos pacientes. |

Acessibilidade: banheiro adaptado para pessoas com dificuldades de locomoção
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O professor de Odontogeriatria da ABO Espírito Santo, Dalton Costa, chama atenção para a importância das clínicas e consultórios se adaptarem às necessidades mais comuns aos mais velhos. “Banheiros amplos e de fácil acesso, rampas, portas mais largas, pisos antiderrapantes, boa iluminação e prontuários com letras em tamanho personalizado para serem lidos com mais facilidade são alguns detalhes que podem assegurar o bem-estar e tornar o atendimento mais humanizado.” |
Quando se trata de pacientes da terceira idade também é preciso levar em conta a possibilidade de serem totalmente ou parcialmente dependentes fisicamente e, assim, terem dificuldade de se locomover até o consultório. Nestas situações deve-se lançar mão do atendimento odontológico domiciliar.
Costa, que também realiza este tipo de atendimento, diz que gosta de referir-se ao serviço como a Odontologia do possível, ou seja, “aquilo que podemos realizar para promover o bem-estar dos nossos pacientes, diminuindo seus sofrimentos e anseios e, algumas vezes, reabilitando e melhorando sua condição estética. Lembrando que o atendimento domiciliar deve ser oferecido apenas para pacientes com limitações de locomoção”. Entre os principais procedimentos realizados em idosos em domicílio estão higienização, confecção ou ajustes de próteses, exodontias, manutenções periodontais e eliminação de dor.
Hoje já existem diversos equipamentos odontológicos e até consultórios móveis completos específicos para o atendimento em domicílio, mas esse aparato todo não é essencial para devolver saúde e conforto ao paciente. “Apenas instrumentais clínicos e periodontais, auxiliados com uma escova de dentes, já são suficientes para a realização de muitos procedimentos importantes. Sempre digo que o importante não é o equipamento e sim a capacidade de se adaptar às condições encontradas em cada circunstância”, diz o profissional. E ainda ressalta: “Devemos sempre lembrar que estes pacientes são fragilizados emocionalmente e imunologicamente, portanto, devemos nos preocupar em não levarmos infecção externa para seu ambiente”. |
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