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O FUTURO DA ODONTOLOGIA VI
Novas políticas para nova população
O envelhecimento populacional acarreta demandas sociais e econômicas, exigindo planejamento de políticas públicas para assegurar saúde e inserção social à crescente população de idosos, com base em características individuais, familiares e sociais


Importância do convívio familiar e social:
Maria Correa Barros, 71,
com o neto Rodrigo, 16

A Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa define como idoso frágil ou em situação de fragilidade aquele que apresente alguma das condições a seguir: viva em instituições de longa permanência para idosos, esteja acamado, seja portador de doenças que causem incapacidade funcional, sofra de síndromes de­menciais, seja etilista, seja portador de neoplasia terminal, tenha sofrido amputação de membros e/ou que viva em condições de violência doméstica. Neste contexto, o pesquisador Samuel Jorge Moysés, doutor em Epidemiologia e Saúde Pública pela Universidade de Londres

 

 


CD Samuel Jorge Moysés,
da PUC-PR e UFPR

 

 


Expectativa demográfica x
idade x gênero para 2025

(Inglaterra) e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR), defende que a atenção à saúde dos idosos não se resuma apenas ao controle e à prevenção de doenças, passando a incluir interação entre a saúde física e a saúde mental, independência financeira, manutenção da capacidade funcional e suporte social. Na saúde bucal, enfatiza Moysés, são necessárias, ainda, certas mudanças de paradigmas. “Especificamente sobre cuidados odontológicos, a ausência total de dentes não deveria ser vista como um fenômeno natural do envelhecimento. Ser idoso não é sinônimo de ser portador de ‘dentaduras postiças', embora as modificações morfo­funcionais da senescência também sejam observadas na boca”, exemplifica.

Para tanto, Moysés julga imprescindível conhecimento de­mo­gráfico, social, epidemiológico e clínico. O Levantamento das Condições de Saúde Bucal da População (SB Brasil), realizado pelo Ministério da Saúde, com o suporte da ABO Nacional, e finalizado em 2003, permite pro­blematizar o grave quadro amos­tral de agravos e necessidades de pessoas idosas. Em relação à prevalência de cárie, o índice médio de dentes permanentes cariados, perdidos e obturados (CPO-D) para a população amos­tral pesquisada foi de 27,8, sendo que o componente perdido representou cerca de 93% do índice. Quanto à doença periodontal, observou-se que somente 7,9% das pessoas não apresentavam problemas periodontais, enquanto 6,3% possuíam doença periodontal severa, com bolsas de profundidade maior que 4 milímetros . Mas o dado mais negativo é que cerca de 80% dos sextantes examinados foram excluídos do registro para compor o índice periodontal, devido ao fato de não apresentarem nenhum dente presente ou apenas um dente funcional.


Integração física e familiar


Gilberto Pucca Jr.,
do Ministério da Saúde
O coordenador nacional de Saúde Bucal do Ministério da Saúde, Gilberto Pucca Jr., diz ter acompanhado a apuração do SB Brasil com espanto, mas evoca um passado não tão distante para considerar que o Brasil está no caminho certo do envelhecimento com saúde bucal. Ele lembra que até 2002, três em cada quatro pessoas que chegavam aos 60 anos de idade não possuíam nenhum dente. “Fico pensando em um adjetivo mais ameno, mas só posso dizer que isso é um escândalo. Mas por que aconteceu? Porque o Brasil, até bem pouco tempo, negligenciou a Odontologia e sua consequência direta, que é a saúde bucal. O que precisamos entender é que a saúde bucal é parte integrante e inse­parável da saúde, e, portanto, todos os aspectos materiais que podem influenciá-la devem ser enfrentados. Não adianta trabalharmos apenas na perspectiva odontológica, temos que pensar no tabagismo, no etilismo, nas condições de trabalho para os adultos que trabalham expostos ao sol. É assim que temos a chance de sermos efetivos de fato e de envelhecermos com saúde bucal”, considera.

Moysés concorda, acrescentando à idéia de integração defendida por Pucca o elemento familiar. “Não se pode conceber a idéia de dissociar a saúde geral da bucal, como se houvesse dois organismos diferentes, corpo e boca, compartilhando do mesmo indivíduo, assim como não se pode dissociar este indivíduo de sua experiência familiar. Deve-se observar se, no contexto familiar, o idoso apresenta dificuldade em comer, sorrir e falar, pois estas situações podem evidenciar problemas individuais – de dor nos dentes, próteses bucais mal adaptadas, lesões na mucosa bucal, doenças periodontais, necessidades endodônticas, problemas articulares, hipossalivação, neo­plasias – ou familiares – negligência, constrangimento, isolamento, violência doméstica.”

O pesquisador contrapõe à ideia de velhice mórbida, marcada por doença, fragilidade e sofrimento, o conceito de “envelhecimento ativo”, estruturado na possibilidade de promoção da saúde em seu sentido amplo. “Os idosos podem e devem participar de questões sociais, econômicas, culturais, espirituais e de segurança, de acordo com suas necessidades, desejos e capacidades”, defende. Para ele, a transformação do conhecimento de deter­minantes sociais e fatores bio­genéticos, a melhoria das condições sanitárias aliadas a medidas de prevenção de doenças, o avanço da ciência e da tecnologia de modo interdisciplinar e, especialmente, a busca de equidade social e econômica “podem fazer com que a humanidade alcance um aumento significativo no seu tempo de vida com qualidade”.
Mário “Macumba”,
aos 70: exemplo
de envelhecimento ativo

 

Desigualdades que atrasam

Mas grandes desafios ainda se impõem à conquista da equida­de na saúde bucal. Um exemplo disso é o uso e a necessidade de próteses dentárias. O SB Brasil constatou diferenças regionais marcantes na reabilitação oral do idoso brasileiro, sendo que o maior percentual de uso de próteses foi observado na amostra para a região Sul, enquanto que as regiões Norte e Nordeste apresentaram o maior percentual de necessidade de dispositivos reabilitadores. A mesma desigualdade é percebida no mercado de trabalho odontogeriátrico, ainda iniciante no Brasil. Apesar de a Odontogeriatria existir há mais de 50 anos nos EUA e na Europa, só foi oficializada como especialidade odontológica no Brasil em 2001, e ainda não é disciplina obrigatória nos currículos mínimos das faculdades de Odontologia nacionais. Como reflexo disso o Conselho Federal de Odontologia (CFO) tem registrados apenas cerca de 150 odonto­geriatras, enquanto a população de idosos cresce por volta de 650 mil pessoas por ano.


“Direito à água tratada
é assunto odontológico”
Pucca acredita que o futuro reserva menos desigualdades no acesso do idoso à reabilitação, mas atribui o quadro atual a controvérsias que precisam ser superadas. “Pergunte ao desdentado se ter prótese é importante. Já enfrentei alguns debates em que me questionaram se investir em prótese era certo, quem me questionou acreditava que é errado um desdentado ter acesso a prótese no SUS por julgar que a prótese poderia ser interpretada como um ‘prêmio' para quem não havia cuidado dos dentes. Ora, mais de 30 milhões de pessoas no Brasil não perderam os dentes porque quiseram! Elas foram mutiladas, isso sim. Quando o poder público as abandona, por omissão ou não, significa condená-las à própria sorte. Então, nada mais justo, e humano até, começarmos a resgatar essa dívida social. E quem está tendo acesso à prótese, agora, é o idoso, que infelizmente não foi beneficiado pela política de Saúde Bucal. Isso é uma avanço significativo também
porque a saúde pública não pode tratar apenas de poucas ações, e de pouca complexidade. Temos que tratar, sim, das ações de maior complexidade e de reabilitarmos aquelas pessoas que abandonamos há anos”, argumenta.

Quanto à relação entre número de profissionais odontoge­riatras e idosos atendidos, Pucca atribui a desigualdade observada “à opção equivocada de desenvolvimento do País. Precisamos criar condições objetivas para a descentralização dos profissionais. Agora, além de ofertas de emprego precisamos fixar os profissionais. Para isso defendo que precisamos ter uma política de equidade de verdade. O poder público brasileiro, deliberada­mente, optou por canalizar os investimentos no eixo Sul-Sudeste. Isso não aconteceu por acaso. Então, o que precisamos fazer é inverter o eixo de investimentos. Para cada real investido no Sul e no Sudeste, investirmos dois nas outras regiões. Claro, não só na política de Saúde ou na Saúde Bucal, mas sim em todas as frentes propulsoras de desenvolvimento financiadas pelo Estado. Sem uma política inter­setorial de desenvolvimento sustentado é falácia dizer que vamos fixar profissionais. Por isso o governo federal tem atuado para criar essas condições. E é certo que isso desagrada muitos setores e seguimentos que até hoje foram privilegiados”.

Mas, para tanto, Pucca defende uma mudança de visão de todos os cirurgiões-dentistas. “O profissional da Odontologia precisa olhar para as políticas públicas de saúde de forma mais abrangente. Por exemplo: acesso à água potável é assunto de quem? É assunto nosso! Somos profissionais da saúde e sabemos que cidades que têm água fluoretada diminuem a incidência de cárie dentária em 50%. Mas para ter água fluoretada, a cidade tem que ter água tratada, e água tratada significa água clo­rada. Então, direito ao acesso à água tratada é assunto odonto­lógico. Isso é Odontologia de ver­dade, e não alguma coisa que a gente venda só para quem pode comprar.”

Segundo o coordenador nacional de Saúde Bucal, essa visão holística da saúde bucal e da Odon­tologia beneficia especialmente o idoso, a quem Pucca se refere como paciente portador de necessidades especiais. “Pacientes especiais não são ‘só' crianças, são todas as pessoas, inclusive adultos e idosos, que requerem atenção mais focada e que não foi contemplada na atenção básica. Essa é mais uma das novidades para o futuro que já estão sendo implantadas. Entendemos que os CEOs (Centros de Especialidades Odontológicas) são, sim, unidade de saúde bucal que não só podem como devem estar preparadas para atender idosos”, garante.

Um cuidado para cada idoso

Apesar de reconhecer os avanços da atenção à saúde bucal do idoso brasileiro, o pesquisador Samuel Moysés julga que o planejamento das políticas públicas de atenção bucal ao idoso, especialmente sob a lógica do SUS e da Estratégia de Saúde da Família (ESF), deve ter em conta o contexto local dos milhares de municípios brasileiros, onde as realidades são muito diversas, além de incluir o cuidado ao idoso na atenção básica e pensar si­multaneamente as linhas de cuidados progressivos em média e alta complexidades que esta população exige, a partir do seu perfil regional. “Nesse sentido, a promoção da saúde ganha maior importância ainda para este segmento populacional, tendo em vista a necessária integração in­tersetorial e forte coordenação das equipes de atenção básica.
Elas devem se comprometer para assegurar a inclusão e o acesso dos idosos a vários serviços e ações de cunho sanitário, previ­denciário, de segurança alimentar e de mobilidade, de assistência social e suporte familiar, enfim, de redes de apoio comunitário e de serviços que façam a real diferença para a qualidade de vida dos idosos”, sugere. A acessibilidade também é outro desafio apontado pelo pesquisador. “As incapacidades e dificuldades de locomoção que acometem alguns idosos exigem a construção de estratégias para a eliminação de barreiras físicas nas unidades básicas de saúde (UBSs), além da garantia de atendimento domiciliar pelas equipes da Saúde da Família. Assim, as políticas de saúde para o idoso deveriam ir além das discussões teóricas e se tornarem mais efetivas, levando em conta a situação particular de cada região e o contexto de cada idoso”, defende.


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