Antes de festejar o crescimento do setor odontológico no País – na iniciativa privada e nas políticas públicas –, a reportagem desta edição da Revista ABO Nacional tem o objetivo de refletir sobre as relações entre público e privado tendo a sociedade como maior beneficiária, um ideal que ainda precisa de muito esforço para ser alcançado no que tange, entre outras áreas, a saúde bucal.
Tais relações devem ser encaradas pressupondo-se a universalidade no acesso aos avanços da Odontologia por parte da população. Para isso, é importante avaliar tanto a participação do setor público quanto do privado na sociedade.
É fato que a ampliação do acesso aos serviços de saúde se deu com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), e a saúde bucal passou a ser contemplada de forma efetiva nesse contexto com o desenvolvimento da Política Nacional de Saúde Bucal, o Brasil Sorridente. Mas as medidas assistenciais, como a distribuição de produtos básicos de higienização oral, importantes para dar conta do atraso com que as políticas públicas chegaram à área, precisam dar lugar a políticas de resultados mais consistentes e duradouros, que garantam à população os recursos necessários ao cuidado espontâneo com a saúde bucal. Dessa forma, redução de impostos para facilitar a circulação de tais produtos entre a população e investimento em educação para torná-la consciente de seu consumo adequado se fazem urgentes.
A universalização do acesso à saúde também deve ser objetivo de trabalho da iniciativa privada, que não pode ser vista como isolada do contexto social em que se insere e que a alimenta. A responsabilidade social de uma empresa não reside, apenas, em ações compensatórias. Deve ser parte de sua razão de existir. O aumento do consumo de produtos de higiene oral nos últimos anos precisa ser observado sob um ponto de vista crítico, avaliando-se as condições em que tal crescimento se deu e seu real impacto na saúde bucal da população. E, mais uma vez, a interação entre os setores público e privado se faz sentir no social – para o bem e para o mal. Ampliar a participação do poder público nas vendas internas da iniciativa privada nacional não só estreitaria essa relação como faria o mercado crescer em benefício da sociedade.
Ao refletir sobre os contrastes das relações entre indústria, mercado e sociedade, propondo soluções do ponto de vista da saúde pública, a ABO dá mais uma importante contribuição para que o Brasil encontre o caminho do desenvolvimento universal, que beneficia todas as partes envolvidas não de forma igualitária, mas equalizada. É através desta equidade que a sociedade, ainda parte hipossuficiente dessas relações, poderá alcançar o ideal de saúde bucal e integral para todos.
Norberto Francisco Lubiana
Conselheiro da FDI
Presidente da ABO Nacional
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